Foges de Quê?

Foges de quê?

Gostava tanto de poder perguntar-to. Assim. De forma simples e direta. A olhar-te nos olhos, sem desviar a cabeça, centrada em todos, em cada mínimo detalhe da tua face.

Foges de quê?

Foi algo que te fizeram? Ou foi algo que tu fizeste? Não te conseguiste perdoar? Arrependeste-te? Ou não? Tens vergonha de o admitir? O que é que dizes a ti próprio todos os dias? Ou não dizes nada?

Não sei bem se faço estas perguntas por ter esperança de que as tuas respostas me dessem alguma tranquilidade. Sim, talvez essas respostas me dessem algum entendimento daquele momento. Daquele milionésimo de segundo. Daquela conversa pensada. Daquelas tuas palavras, cada uma delas ensaiada. Mas, além disso, apercebo-me de que gostava que me dissesses do que é que foges, porque eu quero saber. Genuinamente, eu quero satisfazer a minha curiosidade. Quero mesmo saber quais as razões que explicam essa tua bipolaridade de ação. Não é possível um só ser humano conter tanta contradição: sedutor, manipulador, doce, amargo, descuidado, calculista, leve, mas tão duro, corajoso mas que foge. Como se pode ser corajoso e fugir ao mesmo tempo?

Afinal, foges de quê?

Bem sei que o ser humano é cheio de contradições construídas pela sua educação, pela sua relação com o outro, pelo alimento do seu pensamento, pelo seu meio, pela sua herança. Porém, parece-me pouco provável que possas ser um traste com coração. Se o fosses, concerteza não terias fugido. O coração far-te-ia permanecer, da maneira que fosse, mas far-te-ia permanecer.

Mas, tu não permaneceste. Por certo, não terás coração? Serás apenas um traste? Se és apenas um traste como é possível falares da maneira que falas, construíres o que constróis, ligares-te a quem te ligas?

Talvez isso exista e tu sejas assim. Mas… Porquê?

Porque é que és um traste?

Ninguém é um traste per si. Tem de existir uma ou várias razões para te teres construído dessa forma. Mas, como o consegues dissimular tão bem? Muito embora, noutras situações não o tenhas dissimulado de forma tão exímia. Foste explícito, mas também cínico. Foste apaixonante, mas traumatizante. Foste estonteante, mas, também, devastador.

E, no fim de tanto tempo, como é ainda possível eu sentir curiosidade para saber o porquê de toda esta contradição?

É por isso que foges? Por seres um traste com coração?

É por isso que corres de forma desenfreada, sem olhar para trás, atropelando tudo e todos aqueles que te podem fazer parar e pensar em todos esses “perigos” que te fazem fugir?

Oxalá, nunca nos tivéssemos cruzado. Eu continuaria quieta no meu canto, como espectadora e com alguma ilusão de que realmente as coisas acontecem por alguma razão. É mesmo muito apaziguador pensar-se assim. Viver-se assim. Infelizmente, há coisas que acontecem sem razão. Sem nenhum propósito. Apenas deixam questões sem respostas.

Afinal, 

Foges de quê?