“Nobre Vagabundo”

Encher o pulmão.

Cantar.

“Quanto tempo tenho pra matar essa saudade

Meu bem o ciúme é pura vaidade

Se tu foges o tempo

Logo traz ansiedade

Respirar o amor 

Aspirando Liberdade”

Lembro-me bem que ouvi aquela canção vezes sem conta na casa da vizinha. O disco tocava e tocava na aparelhagem e isso parecia-me excecional. As tardes era muitas vezes passadas com a música a ecoar pelo quarto e com o cd nas mãos. Era espetacular perceber que aquele pequeno objeto tinha tantas canções. E era bom, era alegre, cantava-se, e de que maneira!, e dançava-se. Como se dançava… Primeiro, eu ficava apenas a ver, mas eram raras as vezes em que não dançava.

Eu adorava.

Naquelas tardes, os sonhos voavam e dava-se larga aos pensamentos, à brincadeira, aos sorrisos… Havia muitos sorrisos, lembro-me bem disso. E isso era bom, era esperançoso. Quando se é pequeno vê-se as coisas a essa dimensão: tudo é bom, quando é bom. Não há meios bons, nem segundos pensamentos. A nossa inocência faz com que se sinta as coisas boas na sua pequena grandeza.

Hoje, ao ouvir esta canção, por escassos segundos, voltei àquele tempo, em que era pequena e ria com facilidade. E com gosto. Verdadeiro. Sem perceber muito bem o que é isso do tempo, de como em situações ele nos parece correr pelos dedos e noutras parece maior que tudo o resto. Essa falta de noção do tempo. Tenho saudades disso. De não o compreender, de não ficar assustada com a velocidade a que passa nem triste por nunca mais passar.

Quando se é pequeno não percebemos bem o que nos diz a letra de uma canção. Eu não fazia ideia do que esta canção queria dizer porque prestava atenção ao som, à vontade de me balancear com o som da canção. E isso é maravilhoso. É a pureza no seu estado mais puro. 

Como queria não prestar atenção às letras das canções e não ter esta mania de ter de compreender o seu conteúdo para poder ouvi-las. É uma chatice. Perde-se o balancear completamente involuntário. Tenho primeiro de conhecer a letra para depois considerar se guardo essa canção para mim ou não. É ridículo, eu sei. Gostava de deixar de ter consciência do que está, do que se diz, do que se faz. Só por um pouco. Como é bom poder viver um pouco assim, sem o peso de compreender o que se passa ao nosso redor. Como deve ser bom viver sem descobrir que, invariavelmente, aquilo que agora projetamos para o futuro aconteça mesmo. A invariável invisibilidade. Quando era pequena sabia lá eu o que era isso de ser invisível. Aos meus olhos, se me dissessem que ninguém me via, eu até era capaz de pensar que isso era fenomenal.

Quando se é pequeno não temos qualquer consciência do que virá. Sabemos apenas do que gostamos naquele momento, sabemos apenas aquilo que nos faz rir naquele momento e vamos atrás. Sabemos apenas que queremos um chocolate porque é docinho e vamos tentar descobri-lo no armário da cozinha. Quando se é pequeno não há qualquer consciência de que não é por gostarmos de uma coisa que essa coisa é boa para nós.

É desolador ter consciência de que aquilo de que gostamos não nos faz bem ou não é para nós. 

Quando oiço esta canção tenho sempre na cabeça a minha imagem, a da minha irmã e das minhas vizinhas à volta do disco. Eu, longe, muito longe de agora. Deus, como isso agora parece de uma outra vida que não é a minha. Num outro tempo, num outro espaço, numa outra idade que não parece que foi minha.

“Sou perecível ao tempo

Vivo por um segundo,

Perdoa meu amor

Esse nobre vagabundo”.

“Nobre Vagabundo” de Daniela Mercury.