“A Paixão Pode Aumentar Com o Tempo”

A pergunta que tinha saído nas cartas era simples: já se apaixonou? Como foi?

Era claro que o propósito era refletir sobre paixão. Um tema que considerei curioso, principalmente porque acompanhava uma sessão de trabalho com seniores. Estavam todos reunidos, em roda, a realizar esta dinâmica. 

“A paixão pode aumentar com o tempo”. Foi esta a resposta de um dos participantes, com mais de 70 anos, creio. Concerteza que esta foi uma das coisas mais bonitas que ouvi dizer nos últimos meses. No meio desta declaração alguns dos presentes mostraram surpresa no rosto e, pareceu-me, outros quiseram contrapor esta ideia. Mas, o dito senhor explicou.

“Quanto mais velhos somos, vamos dando mais atenção a outras coisas e a paixão inicial pode aumentar”. Fiquei embevecida a olhar para o senhor. Tive vontade de o puxar para o meu lado e de ficarmos ali os dois para que eu pudesse perceber como é que alguém vê a paixão desta forma tão pura e honesta. E, diria até, idílica. 

É mais do que sabido aquilo que nos diz o senso comum: a paixão é forte e fugaz, depois das duas uma: ou passa e esquece-se ou desenvolve para o amor. 

Mas, e se o senhor tiver razão? 

Faz-me sonhar um pouco imaginar que aquilo que este senhor disse seja verdade. Como se o sentimento despedido de barreiras como é a paixão não fosse fugaz e pudesse durar a vida inteira. Que bonito, não? Isso será viver. Viver uma paixão, esse sentimento forte, que pode desenvolver-se pelo tempo, tornando-se maduro, seguro e maior. Isto contrapõe em tudo aquilo que eu sempre julguei que fosse a paixão. Eu já a senti, mas desenvolvia-a para algo mais que não sei classificar. Talvez continue a ser uma paixão sem fundo.

Como ele explicou, e bem, quando se é mais novo não conseguimos atribuir importância a muitos pormenores e acabamos por passar pelas paixões como estas sendo efémeras, alguns até as colecionam, não se dá grande importância aos gestos sempre com a certeza de que tudo é temporário. Afinal, talvez a atenção que se aprende a dar, com a idade, a certos pormenores fosse fazendo crescer essa paixão. Torna-nos mais refinados. Prestamos atenção a coisas diferentes aos vinte, aos trinta, aos quarenta anos. Isso é mais do que compreensível e todos nós temos essa experiência. Quanto mais velhos, mais vimos, mais sentimos. Por isso, é natural que a paixão se possa desenvolver ao longo dos anos, não? O beijo de quem amamos pode ser mais intenso consoante o pormenor a que vamos dando valor ao longo do tempo… A intensidade dos gestos ou do olhar pode mudar com aquilo que vivemos, isso é certo. E, então, porque não dizer que eles contribuem para que a paixão seja maior?

Oh! Que sei eu sobre isso? Nada, realmente não sei nada. Mas, fez-me sonhar e sorrir. Quão feliz tem de se ser ou já foi para ter esta ideia?

Imagem: The Hug – Tom Sullivan