Carta a Ti

Tenho pensado muito em ti.

Não te consigo dizer porquê, mas a tua imagem tem estado muito presente. Não é que não o esteja noutras alturas. Mas, ultimamente, é como se teimasses em aparecer sistematicamente. Às vezes é inesperado outras vezes nem tanto. Principalmente, quando, por mero acaso, toca aquela canção… Ou quando te fazem referência sem eu perguntar, sabes? 

Oh, como poderás sabes, tu já nem sabes que eu existo.

E ainda bem. Convivo bem com isso. Tenho muita pena de mim mesma por não me conseguir despegar assim de ti, para mim foi sempre mais profundo, mesmo sem eu própria me dar conta disso.

Também estás na minha imaginação, sabes? Para mim, a imaginação sempre foi o meu refúgio. É tão bom poder fechar os olhos e criar a nossa realidade, onde se é feliz. É mesmo bom, sabias? Mesmo que seja por um pouquinho de tempo, por vezes, é um descanso… Diria mesmo que é um alívio. Se pudesse vivia a imaginar. É uma tolice, mas a minha imaginação é tão mais bela e cheia de vida do que a minha realidade… Por um tempo, eu deixei de conseguir imaginar. Penso que foi depois de nos termos conhecido. Como, pela primeira vez, a minha realidade era tão estonteante e conseguia sobrepor-se a qualquer outra coisa que eu pudesse imaginar, eu deixei de imaginar. Depois, pior, quando deixaste de estar. Aí é que não conseguia mesmo criar qualquer imagem. Talvez a minha tristeza não o deixasse. Surpreendentemente, agora, a minha tristeza deixa-me imaginar. Primeiro, comecei por locais. Olhava para sítios bonitos e pensava como seria estar ali. A pouco e pouco consegui imaginar-me aí. Depois comecei a ver obras de arte e a visitar locais imponentes. Comecei outra vez a imaginar o pintor a pintar aquela pintura ou como seriam esses locais antigos cheios de vida. Agora, consegui voltar a imaginar-me numa outra realidade. Eu queria mesmo muito que não fosse contigo, mas por mais que me esforce não consigo evitar que também tu faças parte da minha imaginação.

Imagino-te.

Imagino-nos.

Naqueles segundos em que as imagens aparecem na minha cabeça é mesmo bom e apaziguador. Como se houvesse um sentido para as coisas e tudo tivesse valido a pena. E sorrio e é tão bom naquele bocadinho de tempo estar contigo numa realidade imaginada por mim. Aí fomos capazes de tudo. Depois, quando abro os olhos e vejo onde estou, na realidade real, fico muito triste. E choro. Choro muito. Às vezes bem quero chorar e deixo-me estar. Ninguém está a ver. Nunca ninguém esteve a ver, por isso não me importo de chorar. Noutras alturas, esforço-me muito para parar. Porque se chorar muito e depois vir alguém essa pessoa vai notar e vai fazer perguntas. Eu detesto que me façam muitas perguntas, sabias? Hum… Acho que não nos deste tempo para o descobrir.

O esforço para se estar bem é mesmo complicado, sabias? Oh! Eu sei que não sabes, graças a Deus que não o sabes, nunca estiveste nesse ponto e isso é óptimo. Quando estou muito cansada de me esforçar tanto penso muito em ti, sabes? E quase sempre penso no teu bonito sorriso e que nunca vais saber o que é isso de te esforçares para estar bem. E que nunca estarás sozinho. Isso é tão bom. Às vezes gostava de te o ter dito antes de te teres ido embora. Mas… Já te deste conta disso? Nunca estarás sozinho, terás sempre amor do teu lado e vais ter tantas coisas bonitas para viver. E mesmo quando passares por momentos mais tristes, nunca terás de passar por eles sozinho. E isso descansa-me bastante.

Sabes, como, ultimamente, tenho pensado muito em ti, cada vez mais sei que só mesmo uma pessoa como tu me poderia ter dado a vida. Era como se tivesses sido desenhado por mim. Bem, pelo menos aquilo que conheci, que sei que foi bem pouco. Mas encaixava tudo. É mesmo incompreensível para mim aceitar que nos tenhamos encontrado para nada. Foi mesmo para nada. Mais valia não termos dado nenhum passo. Pelo menos sei que não fui um problema para ti. Detesto pensar que possa ser a causa de algo de mau para alguém, muito menos para ti. Às vezes dá algum consolo, noutras nem tanto.

Estar a pensar tanto em ti às vezes é mau porque é sempre o confronto com a minha realidade tão insípida e insignificante. Noutras vezes é bom porque é como recordar um sonho. O pouco onde nos encontrámos foi mesmo um sonho. Só podia ser um sonho e para acordar dele precisei de um abanão. Mas, foi mesmo um sonho… que morrerá comigo e só comigo, eu sei. Tu morrerás com outras coisas muito mais belas e incríveis.

É melhor parar por aqui esta carta que nunca te irei entregar e que nunca lerás. Talvez, se continuar a pensar muito em ti, te volte a escrever.

Talvez…

Ai, sabes, aquela música… Outro dia quando tocou no rádio foi mesmo como se estivesses ali… Ao pé de mim.

Que tonta…

Pintura: “Sibila con tábula rasa” de Velázquez