A Menina à Janela

Tinha acabado de chover quando passei pela mesma rua que me faz recordar-te e pela qual ando tantas vezes. Num dos prédios cinzentos, no rés do chão estava uma menina, encostada ao parapeito da janela, que olhava em frente. Talvez estivesse a contemplar os montes de folhas caídas junto aos carros ou as inúmeras poças de água que se formaram naquela estrada de alcatrão esburacado. Não sei o que a menina estava a ver, mas, automaticamente, fiquei com a sua imagem na cabeça.

Antes, quando via crianças não pensava em nada de especial, apenas que a sua ingenuidade era engraçada e que era preciso dar-lhes educação e conhecimento. Hoje, penso sempre “Deus queira que seja feliz”. A felicidade é subjetiva, bem sei. O que a mim me pode fazer feliz não é o mesmo para o outro. No entanto, eu sei que há um sentimento que é capaz de ser transversal a todos no que toca à felicidade. O amor. 
Quando eu era uma menina ouvia sempre em casa os mais velhos a dizerem uns aos outros: “o importante é que haja saúde!”, “que não falte a saúde, agora o resto…”, “a saúde é o mais importante”. Uma vez perguntei à minha mãe porque é que as pessoas diziam aquilo. A minha mãe explicou que a saúde é o que nos faz viver. Se tivermos muitas coisas, mas não tivermos saúde de que é que isso vale? Eu, muito prontamente, disse que isso para mim não era o mais importante. E, a minha mãe no seu tom mais surpreendido perguntou-me: “então não é saúde… se não é a saúde… Diz-me lá o que é mais importante?”. A resposta saiu-me muito depressa: “o amor”. 
Aos dias de hoje em que me lembro deste episódio não sei muito bem porque é que naquela altura respondi isso. Talvez porque via a Cinderela e pensava que era fascinante existir um Príncipe Encantado que pudesse ser a esperança de alguém. Eu, nessa altura tinha muita esperança. Mesmo com tanta desesperança à minha volta eu tinha esperança e pensava sempre que quando crescesse é que as coisas iam ser diferentes! Que ia ter uma boa profissão, ia ser independente, ia conhecer o mundo mas, e o mais importante de tudo, ia encontrar o amor. Porque o amor existia e iria salvar-me. Eu ia ter o meu príncipe encantado.
Hoje, mais do que nunca, tenho a certeza absoluta de que estava certa quando era mais pequena. O amor é mesmo o mais importante que podemos ter na vida. Talvez ele até nos traga a saúde, mas tenho a certeza que nos ajuda a lidar com a falta dela. Por isso, bem sei que apesar de todos nós termos ideias diferentes do que nos pode fazer felizes, o amor é transversal a todos nós. Penso sempre que é ele que nos pode dar as oportunidades que precisamos na vida. Ele pode-nos, de facto, salvar a vida. Através dele podemos mudar o que somos, mudar aquilo que à partida pode ser o nosso destino, mudar a forma como nos posicionamos em relação ao outro.
É frequente que eu diga que é o amor que nos torna melhores. Que nos torna inclusivos, que nos dá força para lutarmos contra os nossos medos, que é o motor para dar uma outra vida a alguém. E quem tem esse amor irá retribuí-lo. Porque o amor torna-nos melhores e influencia aqueles que estão ao nosso redor. Ele transmite-se naturalmente, como se o nosso corpo o transportasse sem saber…
O amor pode mudar a nossa desconfiança no futuro, a nossa falta de crença de que a vida pode ser mais do que é, a frustração recorrente de não conseguir ter o que se deseja, o vazio sem fundo que se aloja em nós. O amor pode mudar tudo. Um amor forte, sincero, despojado de riqueza e rico em simplicidade pode mudar tudo.
Deus queira que a menina que eu vi hoje à janela tenha muito amor ao longo da sua vida. Dessa forma tenho a certeza de que será feliz. E fará feliz quem estiver ao seu redor.
Quadro de Lilla Cabot Perry, “Child in Window” (1891)