Desabafo

Dizem que a felicidade está nas pequenas coisas. Será? Não sei. A felicidade é uma propriedade de cada um e não se pode comparar nem universalizar. A propósito disto de “ser feliz”, tenho-me recordado muito de uma situação que presenciei o ano passado. 

Estávamos quase a entrar no verão, as noites começavam a estar agradáveis. Não me custava tanto, como agora, sair depois de jantar e dar uma volta para desenferrujar as pernas. Fui pelo meu circuito habitual. Desde a pandemia que criei um percurso só meu e que o faço regularmente, por vezes não muito seguro, admito, mas até agora tem me dado confiança para o continuar a realizar. Gosto de andar à noite porque é tudo mais silencioso e, dessa forma, tenho a certeza de que ninguém me vê. Quase sempre foi assim. Mas é mais confortável para mim dessa maneira. 

Conforme vou andando, num ritmo preciso e a conseguir não pensar em nada (antes caminhar dava-me essa possibilidade de não pensar ao contrário de hoje) começo a ouvir uma voz. Olho em frente e vejo uma mulher com mais duas pessoas.

A senhora estava a chorar e, pareceu-me, meio desorientada enquanto as outras duas pessoas olhavam para ela e tentavam fazer com que ela entrasse num pequeno café na esquina da rua. Mas, a senhora chorava, chorava e dizia que não sabia porque lhe aconteciam certas coisas. “Eu só queria ser feliz”. Estas palavras saíram-lhe com uma aflição misturada com tristeza que eu tive vontade de parar. E, também eu, tive vontade de chorar por aquela senhora.

Como eu a compreendo.

“Eu só queria ser feliz”. Eu tentei não olhar diretamente para ela, não a queria fazer sentir-se
desconfortável, já bastava toda a sua inquietação e a verdade é que ela não estava ali sozinha. Dei corda aos sapatos e continuei pelo meu percurso sempre certo e já rotineiro. Eu apenas desejei que Deus permitisse alguma paz àquela mulher e que algo de bom, mesmo pequeno e singelo que fosse, lhe acontecesse nos próximos dias. 

Mas, aquele desabafo “Eu só queria ser feliz” ficou gravado na minha memória. Não sei bem se foi por a compreender ou pelo desespero que empregou nas palavras. Mas, a verdade, é que elas ficaram em mim e até aos dias de hoje não me esqueci. 

O que dizer a quem se expressa desta forma tão límpida, sincera e angustiante? Não sei. Talvez não seja o momento de dizer nada, apenas de dar um abraço. Dar-lhe um abraço naquele momento não a faria feliz, concerteza, mas dava-lhe algum consolo. Às vezes, quando a dor é profunda e não há esperança é até cruel dizer que “tudo vai ficar melhor” ou que “as coisas se vão resolver”. O que é que qualifica cada um de nós para proferir tais palavras? Somos adivinhos? Julgamos que a nossa experiência serve para todos? Somos magos?

Consigo compreender que quando se está perante alguém que assume a sua infelicidade e o seu desespero por não conseguir ser isso de ser feliz seja difícil lidar com isso. A sociedade atual está preparada para lidar com o sucesso, com a felicidade e com a certeza de que sabemos tudo porque tudo é belo e amarelo e está tudo sempre bem.

No entanto, tal como eu ouvi na semana passada uma médica a dizer a uma turma: nós não estamos sempre bem. E como é que lidamos com isso? Como é que lidamos quando alguém nos diz que não está bem? Estamos preparados para isso?

Creio que a maior parte de nós não está preparado para isso.

O ser humano tem muito dificuldade em lidar com o fracasso. Sentirmo-nos mal na sociedade atual é quase como se fosse um fracasso. E ninguém gosta de lidar com o fracasso. Não fomos preparados para isso: para lidar com a infelicidade, para lidar com o fracasso.

Não sei bem se todos temos essa oportunidade de ser felizes. Cada vez mais a vida mostra-me que não. Nem todos têm essa sorte. É que talvez o sentido esteja aí: é uma sorte, um acaso e uns têm e outros não.

Oxalá aquela senhora, nos dias de hoje, saiba o que é isso de ser feliz. Se não o souber ao menos que encontre algo por aí que atenue esse vazio. Assim, tudo isto já não será completamente em vão.

Pintura: “A Weeping Woman” de Rembrandt