Invisibilidade

Um outro dia lembrei-me de uma conversa que tive, há alguns anos, com uma pessoa em que falámos do que é ser invisível. Eu era uma miúda e de uma maneira meio acriançada, com um sorriso demasiado aberto, lhe disse: “eu gostava de ser invisível, assim ninguém dava conta da minha presença”. Sabiamente, essa pessoa respondeu-me “Não… Ser invisível não é bom. Ninguém repara em nós”. Eu deixei de sorrir tanto e por alguns segundos pensei bem no que ela me estava a dizer. Estranhamente, não tive vontade de contrapor esta sua afirmação com aquilo que julgava certo. Às vezes os adolescentes são chatos com essa vontade de fazer valer a sua opinião. Creio, até hoje, que  não tive essa vontade porque aquilo que ela me dizia até me fez sentido. O certo é que nunca mais me esqueci das suas palavras.

Chegada aqui, sei que ela tinha toda a razão. Ser invisível é duro. É estar no meio de uma multidão e não termos nada que nos diferencie de tudo o resto. Algo que leve alguém a nutrir um interesse genuíno e encantador por nós e que esse seja recíproco. Algo que faça com que alguém nos veja nessa nossa maneira de ser. Mas, é, da mesma maneira, ser a única pessoa no meio de uma estrada e ninguém notar a nossa presença… 

Dizem que ninguém é igual. Talvez, isso seja certo. Mas, isto de ser invisível traz esse sentimento de sermos iguais a todos os outros. Traz esse sentimento de não sermos únicos. Chegar a essa conclusão é meio estranho. É como se… É como se estivéssemos desfasados do nosso mundo.

Também dizem sempre que não temos de agradar aos outros e que temos de viver a nossa vida da forma que sentimos ser a melhor, fiéis a nós próprios. “Alguém há-de reparar em ti”, dizem essas pessoas que vivem uma vida comum… Aquela vida que deve ser a vida de todos. Eu entendo que o digam. Eu se tivesse uma vida comum, a atingir todas as metas que é suposto atingirmos como seres humanos, diria o mesmo. Eu entendo: é o que se deve dizer.

Também há quem diga que todos temos uma “luz” diferente. Então e se ela se for apagando ao longo do tempo porque ninguém a viu? Talvez seja aí em que, de facto, se é invisível. Ninguém nos vê e andamos assim pelo meio da multidão ou ficamos parados no meio da estrada. À espera. Sempre à espera, a sonhar como seria se alguém nos visse na nossa invisibilidade.

Mesmo na invisibilidade é sempre melhor andar um pouco, fazer-se algumas coisas, fazer com que essa espera não seja tão literal. Pode-se esperar a andar ou a falar ou a escrever ou a ver um belo quadro. Sempre será mais suportável do que se ficar parado.

Realmente, ser-se invisível não é bom. É certo que poucos entenderão o que escrevi. E espero mesmo que sejam poucos. Isso é sinal de que a maioria não sabe o que é ser invisível e isso é extraordinário.