“You Give Me Something” – Na Terra Árida IV

Helena Durães
Tempo de Leitura9 Minutos, 7 Segundos
Não consigo parar de rir. Há quem diga que é dos nervos e, talvez, tenham razão. Mas não poderia adivinhar que íamos estar os dois estatelados no chão. Ainda bem que o colchão nos amparou. J está em silêncio com aquele ar de quem tenta processar o que aconteceu.
O seu silêncio faz-me acreditar que realmente ele está surpreendido. Porém, eu não consigo estar séria, mesmo que entenda que para ele é como se tudo o que tivesse construído caísse por terra.
A peças da cama circundam-nos, o pó da madeira circula pelo ar. Finalmente, viro a minha cabeça na direção do meu homem.
– Ei… – digo, docemente – Não tem problema.
J vira a sua face e fica a olhar para mim. A sua expressão continua séria, surpreendida é certo, mas é também séria. Não sei o que lhe passa pela cabeça. Ele maneia a cabeça e senta-se no colchão, agora no chão.
– Podemos sempre dormir aqui? – digo ao sentar-me, imitando a sua posição.
– Não acredito… Como é que isto aconteceu? Eu vi tudo o que me disseram…
Levo a minha mão ao seu braço e sorrio. O seu olhar prende o meu. A intensidade que impregna naquela sua forma de me descortinar, deixando-me exposta à sua análise, não me assusta. Esta é, talvez, uma das melhores formas de comunicarmos. Sem palavras. Apenas com aquilo que somos.
J leva a sua mão à minha face. A sua mão quente provoca em mim um arrepio ao mesmo tempo que sinto a leve brisa que entra pelas janelas do quarto, completamente abertas.
– O meu fracasso nunca te incomoda? – A sua mão deixa a minha face.
A sua pergunta retira qualquer resquício de boa disposição que existisse naquele quarto. A leveza do momento desapareceu rapidamente, como a brisa que ainda há segundos me tocava a pele.
– Não – O ambiente naquele quarto ficou seco – Eu amo-te. Mas, ainda assim não é só por isso – chego mais perto dele, colocando-me no meio das suas pernas – Todos nós temos os nossos fracassos.
– Não somos apenas coisas belas…
– Faz parte de nós. Até estarmos destruídos… Tu conheceste-me quando eu estava destruída…
A sua respiração calma, espaçada, dá-me o sinal de que, por um momento, ele está a regressar ao dia em que nos vimos pela primeira vez. Provavelmente, está a recordar-se de como foi conhecer-mo-nos. Por vezes, ele é tão transparente, principalmente quando o assunto somos nós.
J passeia os seus dedos pelos meus caracóis e eu fecho os meus olhos. Adoro sentir o seu toque cuidado… Sempre adorei.
– Estávamos os dois destruídos -A sua voz rouca interrompe o nosso silêncio.
– Não estaremos ainda?
– Talvez.
– Eu sei que tu me voltas a colar as peças… todos os dias -Sinto os seus lábios no meu cabelo – Da mesma maneira que esta cama está agora desfeita, sem arranjo aparente… Eu tenho a certeza de que vais encontrar uma maneira de lhe dar uma nova vida.
Deixa-mo-nos estar assim por algum tempo. Sinto como J aperta o seu abraço.
– Talvez por estarmos os dois destruídos é que nos conseguimos encontrar… Alguma vez pensaste nisso?
Aceno.
– Tantas vezes… Mas a minha destruição era mais latente.
– Porque dizes isso?
Encolho os ombros.
– Foi preciso pouco tempo para que tu te apercebesses que eu estava cheia de medo. Estava cheia de medo de tudo isto.
– Eu sei… Ao início não conseguia aceitar que tivesses medo. Para mim era tudo tão claro.
– Sempre te mostraste tão sereno, tão forte… Eu sei que muitas vezes não demonstraste aquilo que estavas a sentir. Tinhas medo por mim. Que fugisse, que deixasse isto.
– Pensei que o tinha conseguido disfarçar.
Pego em uma das suas mãos e beijo-a.
– Tu sempre me deste algo… Não sei explicar, mas sempre me deste algo que me fez acreditar, apesar de estar aterrada. Tinha medo de que me rejeitasses, de que aquilo que sentiamos um pelo outro não fosse suficiente para me dares tempo… Deus sabe como ainda tenho medo de que um dia tudo termine.
Entrelaçamos os dedos.
– Tudo termina se deixarmos.
Maneio a minha cabeça.
– Sempre tão simples, J…
– Mas não é assim?
– Talvez… Talvez seja assim, mas-
– Porque estamos a falar disto, L? Estamos a colocar cenários que nem por sombras me passam pela cabeça. Passam pela tua?
– Não – digo, prontamente. Levemente, consigo rodar de modo a olhar nos seus olhos – Se há coisa que não me passa pela cabeça é isso, principalmente depois de estarmos aqui…
Encosto a minha face no seu peito, ouvindo o seu ritmo certo e compassado. Um som que me acalma de uma maneira única e inigualável.
– “You only stay with me in the morning, ou only hold me when I sleep”
Fecho os olhos e sorrio. Não acredito que ele se lembra.
– “I was meant to tread the water, Now I’ve gotten into deep”
– “For every piece of me that wants you, Another piece backs away” – Eu completo.
Rapidamente, J levanta-se. Deito-me na cama, de frente para a porta do nosso quarto. Sei exactamente o que ele está a fazer. Neste momento, está na nossa sala, a retirar a guitarra do descanso de madeira, que ele próprio construiu quando aqui chegou. 
Deitada na cama, vejo-o a aparecer na porta do nosso quarto. Coloco a minha mão debaixo do queixo e admiro-o. J procura pelos acordes certos e rapidamente os encontra.
– “‘Cause you give me something, That makes me scared, alright
This could be nothing, But I’m willing to give it a try
Please give me something, ‘Cause someday I might know my heart”   
Ele canta corretamente, acompanhado pela guitarra, em andamento até chegar ao nosso colchão e aí voltar-se a sentar. Esta talvez seja a única canção que eu o tenha visto cantar e a tocar de início ao fim. Sem qualquer receio de o fazer, estivesse onde estivesse.
J dá o acorde certo e olha para mim. Nunca hei-de perceber porque é que ele gosta de me ouvir cantar. Não tenho absolutamente jeito nenhum, muito embora o adore fazer.
Sorrio e sento-me, ficando à sua frente.
– “You only waited up for hours, Just to spend a little time alone with me”
Coloco a minha mão no seu joelho, sentindo-me a mulher mais sortuda do mundo por o ter ali comigo.
“And I can say I’ve never bought you flowers, I can’t work out what they mean” – ele continua.
“I never thought that I’d love someone, That was someone else’s dream”, cantamos em uníssono e tudo me parece demasiado poético para ser verdadeiro.

Ele para de tocar. 

– Nunca pensei que pudesse ser o sonho de alguém – ele diz-me. O tom é sério, como se me estivesse a fazer uma confissão – Nunca pensei que pudesse colar as peças de uma outra pessoa… Sempre fui tão centrado em mim, nas minhas coisas, nos meus problemas… Como se fosse eu que precisasse que alguém colasse as minhas peças.
J coloca a guitarra no chão e olha mim intensamente e sem barreiras.
– Sabes uma coisa? Acho que tu colas as minhas peças ao mesmo tempo que eu te ajudo a colar as tuas.
Sinto a água que tolda a minha visão a escorrer pela minha face. Não sei o que despoletou tudo isto, talvez o irmão, as memórias do que fomos, a cama partida… J não é um homem de muitas palavras no que toca ao que sente, mas hoje… Hoje foi diferente.
Ele sorri-me e eu seco as minhas lágrimas com os meus dedos. J volta a pegar na guitarra.
– “But it might be a second too late, And the words I could never say, Gonna come out anyway”
A sua voz e os acordes deixam-se de ouvir novamente. Ele apenas espera por mim, que eu pegue no seu convite implícito e que cante com ele. Aceno ao de leve e, em conjunto, voltamos a juntar as nossas vozes.
– “‘Cause you give me something
That makes me scared, alright
This could be nothing
But I’m willing to give it a try
Please give me something
‘Cause someday I might know my heart
Know my heart, know my heart, know my heart”
– A senhora M disse-me que eras um bom homem – as minhas palavras saem num tom demasiado baixo.
As peças da cama continuam ao nosso redor, da mesma maneira que caíram é assim que ainda estão. Deitados no colchão, depois de fazermos amor, não nos podemos mais levantar.
– Como? – a pergunta dele sai no meio de um bocejo.
– Sim. A senhora M disse-me que eras um bom homem. Que te tinha visto a falar com os mais velhos a pedir conselhos por causa da guitarra, da cama…
Agora percebo que J está um pouco mais alerta.
– Como é que isso é possível? Eu quase nunca a vejo…
– Parece que ela tem uma maneira única de ver tudo o que se passa.
– A senhora M é uma das mais velhas desta aldeia…
– E sabes que mais? Vamos conseguir fazer esta cama… – passeio os meus dedos pelo seu peito nu.
– Foi ela que te disse isso?
Sorrio e levanto um pouco a minha cabeça. Deixo um leve beijo nos seus lábios.
– Não. Mas eu sei que o vamos fazer. Em conjunto?
– A reconstruir…
– Sim, a juntar as peças…
– Como sempre?
– Como sempre.
J coloca a sua mão na minha nunca e leva-me até aos seus lábios. Depois, volta a guiar a minha cabeça para o seu peito e aí deixo que o sono me tome.

Seremos capazes de fazer a cama. Seremos capazes de nos curarmos. Seremos capazes de voltar a falar com o seu irmão. Mais cedo ou mais tarde.


You Give Me Something – James Morrison

 
“Try a Little Tenderness” – Na Terra Árida IIIhttps://umolharpessoal.blogspot.com/2019/07/try-little-tenderness-terra-arida-iii.html
0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

Manifestação Nacional de Mulheres

No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, o Movimento Democrático de Mulheres – MDM realiza, a 8 de Março, a Manifestação Nacional de Mulheres sob o lema A força da unidade em defesa dos direitos das mulheres e pela paz no mundo, que se concentra às 14h30 nos […]
%d bloggers like this: