Uma peça que (quase) parece verdadeira

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Senhor primeiro ministro, disse como prova da política que lançou o seu governo (pós política de austeridade ou melhor dizendo pós agenda “vamos-atirar-esta-gente-que-está-a-mais-ao-mar-e-dizemos-que-as-empurrarem”), que o número do desemprego em Portugal baixou para 6,2%. 

Acho que está a ser muito modesto. A sua peça quase parece verdadeira. Se calhar ainda tem menos desempregados.

Mesmo sem lupa – vejo mal, mas tenho cognição para uma leitura diferente dos mesmos números – separo em capítulos o que se passa no paraíso deste palco, para se chegar ao belo número de 6,2% de desemprego que o vi declarar de forma tão feliz, quase ingénua:

1-Os desempregados que deixaram de ter subsídio de desemprego arranjaram (novos e mais velhos) empregos bem remunerados e estáveis, logo deixaram de ser parte de estatísticas como desempregados. Calculo que para cima de 10%.

2-A população activa em idade de produzir deixou de emigrar. Alugam casas no coração de Lisboa, ou compram e vivem felizes para sempre como nas novelas da tvi.

3-Os ordenados subiram substancialmente o que terá resultados óbvios na produção de trabalho, de maior qualidade e mais eficácia, vendo-se a economia crescer tanto que os olhos se me enchem de lágrimas alegres.

Julgo que vivo na Noruega mas com o melhor bacalhau do mundo e um clima de fazer inveja aos nórdicos. 

4- A população ainda com idade de produzir, sem ainda ter chegado à idade da reforma (chamo-lhe os flagelados dos 50 anos) encontrou finalmente soluções de trabalho – de novo bem remunerado e com estabilidade até poderem comprar casa no Algarve e viverem a sua aposentadoria. 

Encontrei-me com alguns hoje, no meu passeio, num mercado de bugigangas e 2ªmão à beira de uma estrada, concebido especialmente para as gentes de meia-idade que precisa de sobreviver com a venda de uns colares e umas roupitas sem serventia -porque não existe lugar para os levar em trabalho.

5-Acabou-se a precariedade nos contratos de trabalho, os recibos verdes foram extintos, levando com isso a uma maior segurança da vida (jovens e flagelados dos 50 anos, esses que andam nas feiras de bugigangas).

6- Fartura de estágios e cursos para tornar os cidadãos cada vez mais preparados e formados profissionalmente (há por aí gente de quase 60 anos que depois de uma longa história profissional em jornalismo (ou outro) anda a fazer um curso de assistente de dentista porque finalmente – ó fortuna – se lhes abriu toda uma nova possibilidade de carreira a tirar dentes com anestesia), já que pagar para ver como acaba a peça dói.

7-Emigrantes regressam e encontram trabalho onde são reconhecidos, bem pagos e, refazem as suas vidas, enquanto ao sol comem queijos, bebem tintos premiados e assam chouriças comendo-as com azeitonas matando a saudade da terra onde agora podem ficar e ser felizes para sempre.

Não contei as percentagens, mas julgo que no fundo, para o ajudar, só existe uma percentagem residual de desemprego. Vem daqueles que não gostam de trabalhar como eu, dos filhos de privilegiados que vão para a praia das Maçãs de Austin Martin e uns parasitas que devem andar a roubar. 

Sabemos que estamos a assistir a uma peça de teatro, isto tudo é uma farsa e os actores cumprem o guião. Só me falta saber qual o país onde se desenrola esta acção. 

Senhor encenador, peço-lhe uma atenção para o palco: no escuro, por detrás no pano, mas já a mostrar a brancura dos caninos, mostram-se umas figuras intolerantes com esta versão. Ameaçam fazer regressar o céu onde se vivia no tempo recente – antes do paraíso de agora- aquele “vamos-atirar-esta-gente-que-está-a-mais-ao-mar-e-dizemos-que-as-empurrarem”. 

Peço-lhe outra atenção para o público, aqueles que pensaram que iam ver um alívio cómico e, afinal, recebem mais uma anunciada tragédia. O público está atento. Cuidado senhor primeiro, pode ser vaiado. Por desonestidade de marketing do produtor/encenador. 

Com números tão bem penteados ainda o vou ver ser despedido desta companhia – na companhia dos parentes. Mas se acontecer, quase de certeza receberão todos convites para lá para fora, no estrangeiro, como prémio, para estágios estáveis e bem remunerados em instituições de bom nome. 

Afinal o palco onde se desenrola a peça nada mais é que uma famosa plataforma rotativa ou catapulta para lugares cimeiros.

Anabela Ferreira

Este artigo é um original Notícias Online

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