Um Encontro Pouco Casual II

Helena Durães
Tempo de Leitura8 Minutos, 50 Segundos
Assim que L. sai daquela casa, sente-se a tremer e a primeira coisa que faz é encostar-se à parede do prédio. O seu coração bate demasiado forte e ela sente que vai explodir. O frio da rua e os arrepios por todo o seu corpo não lhe dão a sensação de que ela se tem de recolher. Não. É precisamente o contrário. L. transporta um calor que nunca sentiu. Tenta-se acalmar e reencontrar o seu regresso a casa.
No meio do aroma da terra molhada e do fumo dos carros, L. apenas consegue sentir o cheiro de C. . Ele é o único que está presente nas suas narinas, assim como em todo o seu corpo: nas suas mãos, nas suas pernas, no seu peito, no seu olhar… E os olhos de C. … L. não consegue esquecer os olhos de C. e todas as suas palavras. Tudo aquilo que ele lhe disse é a única coisa nos seus ouvidos.
Como é que ela vai seguir em frente depois disto? Como vai ser possível prosseguir na sua vida mundana depois de tudo aquilo que ele lhe fez sentir?
L. tem de se concentrar nas coisas básicas, de outra maneira nunca mais sairá dali. E a última coisa que pode acontecer é reencontrá-lo agora, depois de tudo.
Ela fez tudo mal. Porque raio não conseguiu L. seguir em frente? Porque tinha ela de parar tudo e não terminar aquilo que ali foram fazer? Porque é que a sua mente tinha de a parar? Aquela era a oportunidade, aquela era a sua oportunidade de se esquecer de tudo e dar asas a àquilo que tinha imaginado. Aquela era a sua oportunidade de estar numa realidade alternativa. Numa realidade onde não haveria consciência, nem culpa, nem temor.
É certo que quando L. conheceu C. não pensou que algum dia aquele envolvimento viria a acontecer. Não por si, quem é que não gostava de ter um homem como C. nas suas mãos? Ele representava tudo o que ela queria e precisava naquele momento. E não havia o perigo de querer mais do que aquilo. A recusa de qualquer tipo de compromisso era de ambos. Não era apenas dele.
Porém, o súbito medo irracional tomou conta dela. Afinal de contas, L. nunca tinha feito aquilo… Além disso, era impossível esconder o fascínio que ele lhe provocava. O paradoxo de ter a certeza de que não seriam mais do que duas pessoas que se libertam da forma mais próxima que possa existir, e do fascínio que, ao mesmo tempo, começava a despontar por aquele homem misterioso, era algo demasiado grande e inesperado com que L. podia lidar.
Passaram-se dois meses depois daquele encontro que a tinha deixado em suspenso. Durante todo este tempo, L. arrumou as suas ideias. No entanto, o porquê toldava-lhe o pensamento. Qual a razão de tudo isto? Porque é que ela tinha de passar por isto? Não bastava já a certeza contínua de que nada teria? Para quê tudo isto? Para ter a confirmação de que nada teria? Isso era desnecessário. Ela sempre teve isso bem presente.
Os conhecidos acordes começam a soar, baixinho, no seu quarto. L. fecha os olhos e tenta concentrar-se no quer fazer. 
Ela meteu na cabeça que a vontade de o sentir novamente era maior que o medo de deixar o fascínio toldar a sua mente. Porque, na realidade, a saudade maior que ela sentia era da sua pele. Não do seu fascínio. Isso poderia ser tratado depois.

“Unforgettable, that’s what you are
Unforgettable, though near or far
Like a song of love that clings to me
How the thought of you does things to me
Never before has someone been more”
Sentada na sua cama, L. olha para o telefone. Desde a sua saída repentina daquela casa que nunca mais voltaram a falar. Só L. sabia a ansiedade com que tinha ficado em todo o corpo depois de não ter conseguido deixar-se ir. O pior é que passado todo aquele tempo, ela não tinha conseguido deixá-lo ir, encontrando pequenos motivos para continuar a alimentar esta sua vontade em estar com ele. Talvez alguns deles fabricados pela sua mente. É frequente pensar-se isso: vemos o que apenas queremos. Na ânsia de voltar a provocar um encontro, L. acreditou ver alguns sinais de que C. poderia aceitar esta sua proposta.

L. suspira. Na realidade, ela não consegue seguir em frente se não terminar aquilo que começou. Aparentemente, para C. é mais fácil lidar com isto. Claramente, confirma-se: ele está mais do que habituado a isto. E por L., tudo bem. Não é uma questão. Como nunca o viveu, tem sido um desafio viver com todo este turbilhão de emoções que ele lhe provocou. O qual ela lhe agradece. Foi a única maneira de se voltar a sentir viva. Disso ela tem toda a certeza.
Porventura, C. pensou precisamente o contrário. Que L. estava mais do que habituada a este tipo de situações, que L. seria uma mulher tão ou mais vivida quanto ele. Era mentira e talvez na intensidade dos beijos e dos gestos que trocaram C. o tenha descoberto, fazendo com que fugisse. Para L. todas as suposições eram plausíveis. Tudo podia ser real. Em dois meses pode pensar-se muita coisa.

“Unforgettable, in every way
And forever more, that’s how you’ll stay
That’s why, darling, it’s incredible
That someone so unforgettable
Thinks that I am unforgettable too”
L. olha para o telefone. Se realmente quer ter algum proveito de toda aquela situação tem de dar o passo em frente. Se C. não quiser, é enfiar a cara no álcool e pensar que realmente nem tudo na vida acontece por uma razão.
L. decide enviar-lhe uma mensagem. Pega no telefone e apenas lhe pergunta quando podem conversar.
Após poucos minutos ele diz que o podem fazer agora. A música de fundo começa a dar-lhe a ilusão de entrar, novamente, naquela realidade alternativa.
L. inicia a chamada. É bom poder voltar a ouvir a sua voz grave, meio rouca, que a recebe com algum contentamento. Apesar de querer aproveitar esse momento ainda mais, L. decide ser mais direta.
– Podemos voltar a ver-nos?
– Tens a certeza? – pelo seu tom de voz, C. ficou surpreendido.
– Claro. Sei o que estou a fazer.
– No outro dia não estavas assim tão segura.
– Estou agora. Ou tudo se resumiu àquela noite?
– Foi incrível, mas nada mais se pode tirar daí. Há coisas que têm espaço e tempo para acontecer.
– Claro.
É, agora, evidente que tudo o que aconteceu é um assunto encerrado para C. Em segundos, L. não consegue evitar em sentir-se uma verdadeira tola. Definitivamente, ela não está habituada a lidar com isto. Como foi possível ela pensar que C. estaria de braços abertos para a receber novamente? A tristeza invade todo o seu corpo. Será que existem coisas que só podem acontecer em uma determinada altura?
– Estamos a ser racionais e temos de o ser. Somos adultos – C. completa.
– Sim, tens razão – ela diz simplesmente. L. não pode desmoronar agora – desculpa, estar a incomodar-te com isto. Vemo-nos por aí?
– Claro, vemo-nos por aí.

C. é o primeiro a desligar o telemóvel.
L. apenas fica a olhar para o objeto na sua mão e as lágrimas escorrem pelo seu rosto.
Porque é que o maldito fascínio apareceu no meio? Agora é só mais uma frustração para lidar. Tudo foi uma tremenda estupidez. C. acaba de lhe mostrar que foi tudo desnecessário… e até podiam ser amigos. Se nada tivesse acontecido, talvez até podiam ter sido amigos. L. sente que o poderia ter ajudado e aí o fascínio podia ser evidente, podia ser uma realidade e teriam tanto para aprender em conjunto num verdadeiro vínculo, sólido e honesto. Agora nem isso serão. Agora serão duas almas distantes que não mais se voltarão a encontrar de forma descomprometida e com a sensação de que tudo é novo.

Isso, jamais, irá acontecer de novo.
No fim de contas, C. não tem culpa de nada. Provavelmente, leu-a mal. É possível que uma das teorias de L. seja de facto uma realidade: C. pensou que ela se atiraria de cabeça, que ela estava já acostumada a fazer este tipo de coisa. Mas, depois, percebeu que não. Que não era assim e arrependeu-se. Não pensa sequer que vale a pena uma segunda oportunidade.
E as dúvidas que sempre existiram em L. aparecem mais nítidas do que nunca. Mas quem é que ela julga que é? Aquele interesse físico dele por ela foi ocasional. Foi um impulso da sua parte, não tem justificação aparente e é claro que C. se deve ter questionado como foi possível dar o passo que deu.

L. sabe que a única coisa a fazer é continuar a sobreviver. Não pode fazer mais nada. É regressar à sua vidinha, com mais uma frustração para o seu currículo. Deus queira que ele seja feliz.
L. pega na garrafa de tequila que tinha comprado naquela tarde. Ela sabia que as coisas podiam não correr como imaginara tantas vezes antes de ter a coragem de pegar no telemóvel e falar com C.. L. abre a garrafa, pega no pequeno copo e enche-o. O melhor a fazer agora é beber até entorpecer os pensamentos e deixar de pensar em tudo aquilo que poderia ser mas que nunca o será. L. leva o copo à boca, mas para até acabar de ouvir a voz de Nat King Cole:

“Unforgettable, in every way
And forever more, that’s how you’ll stay
That’s why, darling, it’s incredible
That someone so unforgettable
Thinks that I am unforgettable too”
Deve ser mesmo incrível sermos inesquecíveis para alguém… Agora, L. tem a certeza de que nunca será inesquecível para C. na mesma medida em que ele o é para ela. Num gole, toda a tequila que estava no copo, está já no seu corpo. L. volta a encher o copo.

Unforgettable, de Nat King Cole

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