“Try a Little Tenderness” – Terra Árida III

Helena Durães
Tempo de Leitura11 Minutos, 19 Segundos
“Então o rapaz já conseguiu fazer a cama?” A senhora mais velha pergunta-me no meio de um sorriso. Maneio a cabeça “acho que não… mas quando ele mete uma coisa na cabeça… não é fácil dissuadi-lo…” respondo levemente ao mesmo tempo que mexo a sopa que está ao lume.
“Eu sei o que é isso, filha… O meu Z era igual. Mas nunca me deixou fazer mal, sabes? Salvo uma vez quando me disse que ia concertar a máquina de costura… e foi pior a emenda do que o soneto”. O  riso que a senhora M solta é contagiante e logo estamos as duas a rir na cozinha.
“Tenho saudades dele, sabes? Era o meu homem…”, ela diz ainda a sorrir, ajeitando-se na cadeira.
Tapo a panela da sopa e sento-me à sua frente.
“Imagino que sim… Como é que ele era?”
A senhora mais velha sorri “era o homem que me amava. E que eu amava”.
Talvez ela não queira falar mais sobre o senhor Z. Mas, mesmo assim, parece-me uma boa maneira de definir alguém. Haverá, aliás, forma mais sincera de caracterizar uma pessoa? Talvez sejamos apenas e só isso. Pessoas que amamos. E isso é tão já completo, fascinante e ao mesmo tempo misterioso. Afinal de contas, essa é a nossa essência: complexo, fascinante e misterioso, cada uma à sua maneira, uns completos outros nem tanto. Mas todos complexos. Sem dúvida.
Faz algum tempo que o senhor Z morreu, não o cheguei a conhecer. No entanto, não posso imaginar como seja viver sozinha aos 85 anos, como é o caso da senhora M.

Ela aponta-me o dedo “mas tu tens um bom homem, minha filha.” Sorrio embevecida, pelo elogio que faz a J. “Já o vi com os mais velhos, sempre pronto a fazer tudo… até a pedir conselhos como se faz uma guitarra… ou uma cama… Sabes que ter a humildade de pedir ajuda já diz muito do carácter de um homem…”
Aceno. “Sim… Ele sempre foi assim. Sempre a querer fazer melhor, a aprender com quem pode ensinar”.
Oiço a água a ferver e levanto-me. Dirijo-me ao fogão e volto a mexer a sopa. “Já agora, como é que sabe tudo isso sobre ele?”
“Tenho as minhas maneiras de passar despercebida no recinto…”
Solto uma gargalhada. Sei que cada um de nós tem o seu tempo, mas a senhora M, desde que o seu homem morreu, nunca mais foi vista no recinto. Pelo menos é o que todos dizem.
“Um dia vamos as duas ao recinto… Ou pelo menos leva-me consigo para esse lugar secreto onde vê tudo…”.
A senhora M nada diz por um momento. Olho para ela e vejo como ela está a pensar no assunto.
“Talvez um dia… talvez quando ele aprender a fazer uma cama de madeira…”
“Está combinado”, digo prontamente. Eu sei que J não me vai deixar ficar mal.

De há umas semanas para cá, encontro sempre o mesmo cenário quando me aproximo da nossa casa.

A porta aberta mostra-me que ele aí está. Farripas de madeira no ar, berbequins, serras, réguas e papéis… O nosso amplo alpendre está a assim desde que ele pôs mãos à obra. J saiu mais cedo do recinto para chegar mais depressa  a casa e continuar na sua saga da cama.

Ao de leve aproximo-me das escadas que dão para o alpendre. Mesmo no meio de tudo, consigo ouvir como canta. Aquela sua voz rouca com um timbre único…  Às vezes acredito que seria capaz de o encontrar em qualquer lugar do mundo. Subo um degrau e oiço nitidamente o que ele está a cantar… Aquele clássico que sempre me remete para um mundo longínquo onde se cantava em todas as esquinas.

Subo um segundo degrau. Agora quase que me apetece cantar com ele, mas, subitamente, deixo de o ouvir a trautear aquela canção.

“Não entres” oiço a sua voz vinda de dentro.

Pouso a minha mala de pano no último degrau.
“J… temos de comer qualquer coisa… Talvez, pudesses levar isso com mais calma, não?”
“Espera um pouco, L. Por favor!”
Suspiro e acabo por me sentar na última escada. O meu vestido branco está a roçar a terra castanha, mas não há problema. Aqui ninguém se preocupa com isso. Afinal de contas, se a roupa não está suja do pó, como é que podemos andar livremente por esta terra?Encosto-me no corrimão e deixo o meu olhar perder-se no pôr do sol, que é sempre demasiado bonito para aquilo que qualquer ser humano está preparado para ver. 
Não sei quanto tempo passou, há quanto tempo estou aqui a olhar as diferentes cores que se apoderam do céu. Apenas oiço, agora, os seus passos que se aproximam.
“Acabou por hoje?” Pergunto sinceramente, num tom livre de qualquer reclamação. Afinal, J apenas está a fazer aquilo que ele pensa ser o melhor.
Sinto-o mais perto.
“É sempre tão belo…”, diz com um tom de encantamento. Aceno levemente. “Das melhores coisas que aqui encontrámos…”
Ele senta-se ao meu lado e coloca a sua mão no meu joelho agora descoberto. A sua mão quente desperta-me algo de seguro, como o tem feito desde que nos encontrámos naquele aeroporto há vários anos. Dou-me conta de que se me perguntasse há quanto tempo isso foi, eu não saberia responder. Aqui, o tempo torna-se tão relativo.
“Hoje enquanto estava a plantar as batatas, houve um problema… Bem, não chegou bem a ser um problema…”
“Que se passou?” Pergunto sem retirar os meus olhos do céu.
“Uma enxada partiu-se. Não me perguntes como, mas partiu-se. Ninguém se aleijou, como pudeste ver hoje no recinto… Corri até aqui a casa para procurar uma outra enxada. Sabia que havia uma por aí. Vi-a algures com esta história de arranjar espaço para fazer a cama. Sabes o que encontrei? Aquela famosa mala… Aquela roxa.”
Fecho os olhos e sorrio. “Não é roxa. É cor de vinho.” Levo a minha cabeça ao seu ombro e aí descanso. “Engraçado… Estava mesmo agora a lembrar-me disso…”
“Ás vezes pergunto-me como fui capaz de te reconhecer pela mala roxa…Mas o que mais me impressionou não foi bem isso. Foi… Foi aquela tua expressão.” Levo os meus lábios ao seu pescoço. “Houve algo ali, não sei. Já falámos disto algumas vezes, mas não o consigo explicar. Ainda não o consigo explicar”, ele prossegue.
“Sim. Foi algo. Talvez o segredo seja mesmo esse: o de não ter explicação”.
“Sabes bem que não acredito em coisas destinadas, mas… Hoje olhei para aquela mala e a primeira imagem que me veio à cabeça… Foste tu. Tu a olhar para mim, naquele aeroporto, com aquela mala roxa”.
Roço o meu nariz no seu pescoço. “Eu sei que não acreditas, mas… Eu também não sei. Apenas olhei em frente e vi-te ali. A sorrir com o teu mano…” Levanto a minha cabeça para que o possa ver “e… é cor de vinho”. Sorrimos abertamente, em conjunto, como fazemos em tudo nesta nossa vida.
“O meu irmão…” Ele diz num sussurro. Percebo como neste instante ele está a reviver algo. A recorda-se do seu irmão, como quase sempre acontece quando o mencionamos. O irmão que nunca mais viu. Deixo que o silêncio caia entre nós e volto a encostar a minha cabeça no seu ombro. Se ele quiser partilhar o que está a pensar, ele fá-lo-á quando entender.
Num voo rápido, um pintassilgo passa por nós. Involuntariamente, o meu olhar segue-o, parando, depois, num objecto em cima do corrimão. Claro. J só podia estar aqui enfiado, se estivesse a ouvir música. Pego no pequeno rádio a pilhas e ligo-o. Vou rodando a pequena rodinha que me permite experimentar o som de diferentes estações.
“Oh, she may be weary”
Paro. Sorrio e aumento o som.
Young girls they do get weary, wearing that same old shaggy dress”
Levanto-me.
“You know she’s waiting, just anticipating”
Agora é a vez de ele se levantar. J coloca-se à minha frente.
“(…) for things that she’ll never, never, never, possess”
Pego na sua mão quente, firme, fazendo círculos imaginários na sua pele.
“But while she’s there waiting, without them Try a little tenderness”
Ele eleva a sua mão quente ao meu rosto. Como se ali pertencesse, na medida certa para que a minha face ali coubesse, como a casa que sempre encontramos.
Fecho os meus olhos e dou um passo em frente. Coloco a minha cabeça no seu peito e movo as minhas ancas ao de leve, agarrando agora na sua cintura.
“Estás à vontade para cantar” digo por um momento e J solta um sorriso.

E aí sim.

Tudo está no lugar certo.

“But the soft words, they are spoke so gentle, it makes ir easier, easier to bear”. Ele acompanha e agora a canção parece ainda mais perfeita.

Pego em uma das suas mãos que estava na minha cintura e beijo-a. Apenas a sua voz preenche todo o espaço.
“Love is their only happiness, but it’s all so easy, all you gotta do is try, try a little tenderness”. J leva os seus lábios aos meus e é como se nada mais existisse.

A música continua a soar no nosso alpendre, fazendo-nos alguma companhia. Há algum tempo que não estou preocupada no que é que a canção me quer dizer. O rádio apenas está ali a tocar, como que fazendo companhia ao nosso silêncio.
Encostada no corrimão, passeio os meus dedos pelo curto cabelo loiro de J. Sentado no degrau abaixo, por alguns momentos ele encontrou no meu regaço o melhor lugar para aí pousar a sua cabeça. As papaias que comemos talvez não tenham sido o jantar que idealizamos. Mas, a noite quente e a moleza que tomou conta dos nossos corpos depois de estarmos apenas e só os dois, levou-nos a permanecer aqui.

Cama esquecida.
Mala esquecida.
Irmão esquecido.

Apenas nós, por um momento.

“O que será feito dele?” A pergunta cai de repente, como se tivesse estado sempre ali, escondida, e, agora, aparece de forma súbita.
Suspiro.
“Há quanto tempo não tens notícias?”
“Desde que… Desde que aqui estamos…”
“Porque não lhe telefonas”
O silêncio volta a cair entre nós.
Eu sei como ele quer falar com o irmão, saber como ele está. Mas sei também como J pode ser intempestivo. Como precisa de se encontrar primeiro para que depois possa voltar a estar com o mano mais novo. Por vezes, o fosso que criamos com quem mais amamos é demasiado grande para que tenhamos força para o ultrapassar. É no mínimo irónico… Não conseguirmos ultrapassar o abismo que nós próprios construímos. Tal como um arquitecto que deixa de conhecer o seu projecto, não sabendo como o pode executar ou como pode ultrapassar as dificuldades que ele próprio criou quando o desenhou. À partida se construímos algo, saberíamos onde errámos e o que deveríamos destruir para voltar ao zero. Mas, em certas situações, os muros são inquebráveis, por mais que conheçamos todos os seus recantos.

Tenho medo de que algum dia, ele deixe que este muro o consuma.
J levanta a cabeça do meu colo.
“Não queria que entrasses porque queria mostrar-te algo.”
A mudança de assunto repentina…. Aceito esse virar da página ainda que seja momentâneo. De certo que a imagem do irmão o vai a continuar a acompanhar. Espero ao menos que ele consiga um dia enfrentar essa imagem. 

Coloco uma das minhas mãos nos meus joelhos. Com a outra passeio pela sua face. “A tua cicatriz parece mais viva… Será do sol?”
Ele franze o sobrolho. “Achas? Não tenho reparado…”
O meu dedo indicador demora ali, naquela marca por debaixo do seu olho esquerdo.
“Uma imperfeição perfeita… sabes que reparei logo nela?” Ele deixa um beijo na palma da minha mão “É tão… Tão… Não sei. É perfeita.”
Ele ri.
” Eu detesto-a”
Retiro a minha mão da sua face para aí deixar um beijo demorado. “Um dia contas-me?” Pergunto junto de si.

É de noite, mas o azul límpido dos seus olhos faz-me parecer de dia, como se tudo fosse mais claro, mais nítido. E, aí, vejo dor. A mesma dor que encontrei na sua voz ainda há pouco quando falámos do irmão. Ele apenas acena para logo de seguida se levantar. Ele estende-me a sua mão. Agarro-a e levanto-me.

Seguindo-o para dentro da casa, chego ao espaço do quarto. A velha cama deu lugar a uma nova! Sorrio e olho para J. Agora, a dor já abandonou os seus bonitos olhos para dar lugar ao orgulho.  Chego mais perto da nova cama. As minhas mãos passam pela madeira clara e macia. “Já?” Pergunto surpreendida.


NOTA: Música: “Try a Little Tenderness” – Otis Redding

0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

Meteorologia para hoje

Para hoje, está prevista uma temperatura máxima de 26º e uma mínima de 16º. Tenha um bom dia na companhia da sua Telefonia da Amadora.
%d bloggers like this: