Ser ou Estar, Viver ou Sobreviver

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 3 Segundos

Dizem que o mundo é sempre feito de pares: vida e morte, amor e ódio, o bom e o mau, a alegria e a tristeza. Dizem mais: que o mundo é feito de pares e que cada um dos elementos desses pares só existe porque também existe o seu contraditório. Só há o bem, porque há o mal. Só há o ódio porque existe o amor. Só há a vida porque existe a morte. Só há alegria porque existe a tristeza.

Agora entendo, claramente, que da mesma forma que a alegria pode ser um estado permanente, passando a ser ao invés do estar, a tristeza pode existir dessa mesma forma. Ou seja, uma coisa é estar alegre e outra coisa é ser alegre. Uma coisa é estar triste outra é ser triste. Como todos sabemos, uma coisa é ser outra coisa é estar. São dois verbos completamente diferentes, uma simples palavra que muda todo o sentido de uma frase ou de um ser humano.

Há muita coisa que pode contribuir para isso de ser triste, da mesma maneira que também contribui para sermos alegres.

É certo que ser alegre é muito melhor. Pelo menos, vive-se muito melhor. Mesmo com as coisas que correm menos bem na vida… Vive-se melhor. Se me perguntarem o que contribui para se ser alegre… às vezes já não sei bem. Talvez, tudo o que seja contrário àquilo que contribui para se ser triste.

Mas, uma coisa é certa. Viver-se triste é muito mais doloroso. Bem sei que é possível. Quantas pessoas não conheço que passaram a vida inteira a chorar e que vivem… Ou melhor: sobrevivem. É inócuo. Viver-se sem alegria de estar vivo. Traz um vazio. Um vazio da existência. Esse vazio de existir é, depois preenchido por essa tristeza. É-se triste. Podemos estar contentes, mas sermos uma pessoa triste. Podemos passar o dia a rir e, à noite, no aconhego da nossa solidão terminamos sempre a chorar. No fundo, é mais um contraste entre aquilo que é viver e o que é sobreviver.

Não se pode dizer a uma pessoa que tem o coração coberto com o manto da tristeza que simplesmente atire esse manto para o lado. Que se alegre. Que se levante. Que faça alguma coisa para ser alegre. Porque só assim se pode viver. Isso nunca se pode dizer. Não é por dizermos a alguém para sorrir que esse alguém vai sorrir. Podemos até arrancar-lhe uma gargalhada, mas, ao final do dia, o manto da tristeza é a sua única companhia. Quando assim é não se pode esperar que essas balelas motivacionais, frases feitas ou insistências surtam efeito. Afinal, sobreviver em tristeza, às vezes, não é uma opção, é um condicionamento da própria vida.

Até poque há muitos condicionamentos da vida. Tantos que às vezes é como se não se vivesse a própria vida. Quem sabe, um dia, escreva algo sobre isso. Mas, essa sensação de estarmos sempre deslocados, nunca encaixados, seja nas coisas simples do dia a dia como nas mais complexas é muito cansativo. E, depois, passa de cansativo para triste. Já pensaram nisso? Bem, sei que essa é uma realidade muito longe para algumas pessoas (e ainda bem! É sinal de que nunca se sentiram dessa forma): imaginar que existam pessoas que se sintam dessa forma. Permanentemente deslocados. Como uma peça de um puzzle que não tem onde encaixar e nós tentamos à força que ela fique naquele lugar. Ela até lá pode ficar, mas não se junta às outras peças. É mais ou menos isso. 

Viver anos e anos dessa forma deverá ser extenuante. Acredito que parte dessas pessoas não se tenham resignado e tenham tentado encontrar algo que as centrasse. E se nessa busca incessante não o tenham encontrado? Creio que é aí que a tristeza acaba por tomar conta de tudo. E é compreensível. Não se tem o que se sonha, nem que seja pouco, ou nunca se sentiram indispensáveis ou amadas por alguém ou nunca descobriram algo em que eram mesmo bons. 

Enquanto outros vivem a sua vida, lutam pelos seus projetos, sentem-se realizados, são ambiciosos… Enfim. Lutam por coisas grandes, esses vivem. Não sobrevivem. Existem pessoas que apenas sobrevivem. E essas dão valor às coisas pequninas: ouvir uma música de que gostam, dar um passeio, comer um doce quando lhes apetece mesmo, ouvir contar histórias. 

Sobreviver na tristeza é duplamente duro.

Basta deixar aqui um pedido: a quem vive verdadeiramente a vida que o continue a fazer com toda a garra. Não imaginam a sorte que têm.

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