Por Quem me Tomas?

Helena Durães
Tempo de Leitura6 Minutos, 55 Segundos
Caminho em direção à cama sem qualquer tipo de raciocínio. Estou cansada. Sinto-me exausta de tudo aquilo que os meus ombros carregam. Um peso que me suga qualquer tipo de energia que o meu corpo possa ter.
É tarde? Não sei. 
Olho de soslaio para o relógio na mesinha de cabeceira. Não. Não é assim tão tarde. Mas sinto que não consigo fazer mais nada sem ser esticar-me.
A luz do pequeno candeeiro mantém-se firme. Claro. Só assim poderia ser.
Quanto mais me aproximo da cama, mais me apercebo de como ele está descansado. Como se nada nem ninguém lhe pudesse retirar aquele ar tão sereno, que me faz sempre questionar o mesmo: como é que ele consegue ser assim? Claramente, que está confortável. Duas almofadas a amparar as costas e uma na cabeça. É sempre uma boa opção, uma vez que o relevo da cabeceira da cama não é muito bom para as costas. Principalmente, quando se está a ler.
Desvio um pouco os meus lençóis e sento-me ao seu lado. O seu braço que estava esticado por cima da minha cabeça, imediatamente cai nas minhas costas.
Sorrio.
Serão sempre estes pequenos gestos que me fazem sorrir.
Mexo-me um pouco para puxar o lençol e o cobertor. As noites ainda estão frias para dormir de forma

mais despreocupada. Assim que o faço, os meus olhos vão ao encontro da história da qual ele não retira os olhos.

– Daniel Silva – acabo por conseguir dizer.
– Hum… Hum… – ele apenas concorda.
Mesmo estando cansada, não consigo evitar:
– Pelo menos não é Nicolas Sparks…
– Por quem me tomas? – ele pergunta, sem retirar os olhos do livro.
Maneio a cabeça e aninho-me, finalmente, ao seu lado. Há algum tempo que deixei de dar importância à minha almofada para dormir. Prefiro o seu peito. Ao de leve aí coloco a minha cabeça, sentido a sua pele quente que se faz notar através da t-shirt cinzenta que traz vestida.
Assim que fecho os olhos, descanso.
O livro é empolgante! Finalmente, encontrei algo que me faz estar atento a cada linha, a cada diálogo, a cada detalhe. 
Gosto sempre de ler algumas páginas antes de dormir. Ainda mais agora que espero sempre por ela… Ela tem chegado sempre demasiado tarde. Sei que está cansada, ainda pra mais, sem dormir. Sei-o não apenas pelo cansaço estampado no seu rosto, mas também porque a sinto a acordar a meio da noite. Por vezes, mais do que uma vez. Mas ela nada me diz, afinal sempre foi assim, neste acordo tácito que temos em ajudar-mo-nos sem proferir qualquer pedido.
Somos assim.
Talvez isso nos torne mais poéticos.
Oiço os seus passos que estão cada vez mais próximos da cama. Não tiro os olhos do livro, porque realmente quero perceber onde vai o Gabriel Allon. Mas, ao mesmo tempo, sinto cada um dos gestos desta mulher que me equilibra, como sempre tem acontecido desde que nos conhecemos. Assim que ela se senta, a minha mão nas suas costas é um instinto, não é planeado. O meu instinto também quer apenas sentira que ela está, finalmente, do meu lado. 
Eu sei que a minha mão no seu corpo é uma segurança para ambos.
– Daniel Silva? 
Óbvio que ela tinha de reparar no livro que estou a ler.
– Hum… Hum…
– Pelo menos não é Nicolas Sparks…
Deixo escapar um riso. Claro. Ela não podia evitar ser tão ela.
– Por quem me tomas? – respondo prontamente, sentido como ela agora se aninha ao meu lado. Não vai tardar até que a sua cabeça encoste no meu peito. Ultimamente, é a única forma que ela tem de adormecer e eu não me importo.
Em menos de um segundo, ela cumpre o ritual e a sua cabeça cai em mim, deixando alguns dos seus caracóis sobre a minha t-shirt cinzenta. Ao de leve, coloco a minha mão na sua nuca e aí entrelaço os meus dedos nos seus suaves caracóis castanhos. Posso fazê-lo sem medo. Ela já adormeceu.
Dedico-me inteiramente ao livro.
Não dou pelo tempo passar, o meu pescoço começa a ficar dorido, mesmo com a almofada que o suporta. Está na hora. Fecho o livro, coloco-o na mesinha de cabeceira assim como os meus óculos. Com o máximo de cuidado possível, sem fazer qualquer tipo de barulho, como se estivesse a desarmar uma bomba, retiro uma das almofadas e deslizo para me poder deitar completamente.
Ela dorme descansada, porém, o meu movimento fá-la, apenas, ajeitar-se um pouco, mantendo a cabeça no meu peito. Agora, ela coloca o seu braço por cima da minha barriga. Esta proximidade não podia deixar-me mais calmo. Uma das minhas mãos cai nas suas costas, a outra no seu braço por cima da minha barriga.
Ela abre os olhos de rompante, como se acordasse de um pesadelo.
Parece um milagre. Não acordou nem uma vez de noite?  Ainda está na mesma posição, a mesma t-shirt cinzenta continua a ser a sua almofada. 
Sim. Ele não dormiu nada.
Ela levanta um pouco a cabeça e confirma-se. É já de manhã,.
Devagarinho, consegue sentar-se na cama e os seus olhos caem naquele homem que escolheu amá-la… pelas razões que apenas ele sabe. O seu cabelo preto despenteado é prova de que ele não teve uma boa noite, assim como o seu braço que cai para o outro lado da cama. A sua pele reluz com os raios de sol que teimam em entrar pelas persianas. Estará um belo dia de verão.
E ela tem de ir.
Tem de sair de perto daquele peito que é a sua casa.
Ela suspira.
Como queria que fosse tudo mais fácil… Mas, a vida teima em colocar-lhe dificuldades atrás de dificuldades com as quais só ela pode lidar.
– Bom dia – ele diz finalmente.
Ele nunca lho dirá, mas estava acordado muito antes do que ela. A sua noite não foi boa, sempre com a preocupação de que ela continuasse a dormir. Ele sabia como ela precisava disso.
– Bom dia – ela responde baixinho, ao mesmo tempo que leva a sua mão ao peito daquele homem que ela ama com tudo o que é – desculpa.
– Hum? – ele pergunta esfregar a cara, como se dessa forma a pudesse ver de forma mais clara.
– Não dormiste nada por minha causa.
– Oh… Não foi a minha melhor noite, mas está tudo bem – as palavras saem no meio de um bocejo. Ela ri-se. Sempre pensou que ele ficava demasiado bonito estando tão descontraído – Além disso, eu sei que desta vez conseguiste dormir…
Ela maneia a cabeça. É claro que ele sabe.
– O meu peso foi um estorvo.
– Não. Um estorvo é a tua falta de descanso.
O riso desaparece da face dela. Ele não a está a acusar, ela sabe.
As palavras saíram mais rápido do que deviam. Não era essa a intenção. Ao de leve, ele coloca uma das suas mãos sobre a dela, ainda no seu peito.
– Só quero que estejas bem. E se para isso precisas de mim, eu estou aqui.
Os olhos dela enchem-se de lágrimas. A certeza que este homem consegue colocar em todas as palavras que lhe diz, chega a ser arrebatadora. Exactamente, como agora.
– Um dia ainda vais ter de me dizer porque me amas… – ele sorri. E ele sabe como ela gosta de o ver sorrir, basta ver como o seu olhar agora brilha.
– Isso agora foi um bocado Nicolas Sparks…
Ela solta uma gargalhada e regressa ao seu local favorito: o peito dele.
– Por quem me tomas?
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