Parar a Tempo II – Brincar com as Palavras

Helena Durães
Tempo de Leitura7 Minutos, 47 Segundos
– Nunca soubeste lidar com essa carência afetiva…
– Tu também não.
– Pois não.
– Mas a tua carência afetiva implica contigo e com os outros.
– E tu sofres tudo sozinha.

Sorrio. Ele tem sempre a mania de que me conhece.
– Sim, sofro tudo sozinha. Nunca quis causar problemas a ninguém. Se há coisa que eu nunca quis foi ser um problema fosse para quem fosse.
– Por isso é que te escondes na tua sombra.
– Claro. Sempre andando despercebida e com cuidado para que continue a ser… a ser quase invisível. Amparando o que me vai caindo nos braços… Daí que tenhamos feito bem em parar fosse o que fosse.

Ele pega no cigarro.

– É curioso como é que te tirei dessa sombra.

Encosto-me na cadeira. Tenho uma leve dor de cabeça que me acompanha desde a manhã. Agora, já ao entardecer, a moinha torna-se mais evidente.

– Curioso?
– Sim… Até hoje não sei bem como o fui capaz de o fazer…
– Isso é fácil. Sentias-te sozinho e levaste tudo na brincadeira.
– Da maneira que falas até parece que fui um inconsequente.
– Foste um pouco…

A fita-me.

– Já falámos disto algumas vezes, não percebo porque é que temos de aqui voltar… Mas, na verdade, se não o tivesses feito não estávamos aqui agora.
– Culpaste-me, alguma vez, por aquilo que vivemos?
– Não, A. Nunca o fiz. Sabes bem que nunca te vi dessa forma. Nunca te desejei mal ou pelo facto de me teres retirado da minha sombra. Porque me perguntas isso?
– Eu penso que não causo problemas a ninguém.

Entendo que já não estamos a falar de nós. Suspiro e pego na garrafa que estava pousada na mesa junto à minha cadeira.
– Será?
– Nunca te quis causar problemas.
– Eu não to estou a dizer que o fizeste comigo. Mas… e em relação aos outros?

Ele fica pensativo e eu decido continuar. Decido tentar fazer com que ele perceba que não precisa de procurar mais nada para superar a sua carência afectiva.

– A, tu ainda tens algo de bom. Tu tens salvação, eu não.
– Como assim?
– Tu tens alguém que te ama: ela ama-te incondicionalmente.

Ele suspira.

– Tenho a certeza de que o seu amor é capaz de superar a tua falta de afecto.
– Estás-me sempre a dizer isso…

Coloco a minha mão no seu ombro.
– Não quero que te zangues comigo: só quero que fiques bem. Tranquilo e feliz… para quê andares à procura de algo que é apenas a satisfação do momento?
– Faz-me sentir vivo. Já falámos sobre isso várias vezes.
– Bem… eu bem sei que posso dizer-te o que me apetecer. No fim de contas, fazemos sempre aquilo que queremos.
– Aquilo que sentimos…
– Ou aquilo que julgas sentir.
– Para de brincar com as palavras… – ele diz antes de acender o cigarro.

Oiço um pouco mais da música que toca no gira discos em silêncio.

– Como é que se faz isso? Não seguir os impulsos? – Ele pergunta, discretamente.
– Não sei, A.
– Como é que nós fizemos isso?
– Aí está uma boa pergunta… talvez no nosso caso tenha sido diferente e tenhamos percebido que estávamos a confundir tudo: desejo com interesse. Impulso com curiosidade.
– Intensidade com amizade.
– Sim… foi diferente. Mas… queres-me contar o que aconteceu?
– Estive com outra mulher.

Aceno. Para mim não é uma novidade. Sempre que falamos destas suas experiências ele traz aquela expressão de quem tem de dizer qualquer coisa, só não sabe muito bem como começar.

– Sim, mais uma. E não me consigo sentir mal com isso – A completa.
– Nunca te sentiste mal com isso, A.
– Sim. Isso faz de mim um crápula?
– Não. É a tua carência…

A. encosta a cabeça na cadeira.
– Parece que estás sempre a livrar-me de culpas.
– Tu próprio disseste que não sentes culpa.
– Sinto que estou num labirinto.
– Isso só muda quando sentires que tudo o que precisas para seres completo, já o tens à tua volta. Eu sei disso e estou sempre a dizer-to. Mas só quando o sentires verdadeiramente é que estarás pronto para veres que nada em ti é vazio… ou carente. E, aí, não precisarás de mais nada.
– Tenho de sentir.
– Sim, tens de o sentir… como em tudo na tua vida.
– E tu?
– Eu o quê? – pergunto, confusa.
– Tu não tens de sentir tudo na tua vida?
– Bem, talvez o meu problema é que eu sinta tudo em demasia. Com demasiada intensidade e isso também não é saudável.
– É extenuante.

Sorrio.
– Exactamente.

Talvez seja por nos entendermos de uma forma única que por vezes me pergunto se não o amarei com todo o meu coração. Talvez sim. E talvez essa seja a razão para que eu esteja sempre a olhar por ele, sempre na tentativa de que ele se torne numa melhor pessoa e que deixe de procurar aquilo que há tantos anos já encontrou com a sua mulher.

Ou talvez são os meus devaneios. A dor de cabeça é agora mais forte.

Fecho os olhos.
– Por isso eu sou um caso perdido – digo, baixinho. Mas eu sei que ele me ouviu. Ele ouve-me sempre.
– Tens a certeza?
– Absoluta.
– Como acreditas que eu tenho salvação?
– Sim. Tu tens salvação… E tens tanto para viver, já viste? Tens uma vida inteira pela frente. Cheia de grandes experiências, vais ter uma família enorme e o mais importante de tudo é que nunca estarás só. E podes ser um bom exemplo. Um exemplo de amor…

Ele franze o sobrolho.
– Falas como se fosses morrer amanhã.
– E não estarei eu já morta?
– Não brinques com as palavras, já te disse.
– Sabes que tenho razão. Apenas não mo queres confirmar, porque és meu amigo. Aceito essa tua gentileza.

Inclino-me e coloco a minha mão sobre a sua, fazendo com que o nosso olhar se encontre novamente.
– Acredita em ti e no teu coração. Um dia olharás à tua volta e dar-te-ás conta do verdadeiro amor que te circunda. Um amor grande que vai esmagar o desejo esporádico.

A coloca a outra mão na minha face.
– Acreditas sempre em mim.
– Claro, é a única forma de não morrer subitamente. Estou aqui para isso: para acreditar em ti e…
– E para amparares nos teus braços aqueles que precisarem – ele completa.

A retira a mão da minha face e coloca sobre as nossas mãos, que estão ainda unidas.

– Assim fazes-me acreditar que já me conheces.
– Um pouco.
– Estou meio cansada, sabes? Tantos traumas, sem que nada me iluminasse. Sabes, às vezes pergunto-me como deve ser essa sensação… Algo de terrível aconteceu, mas eventualmente a vida dar-te-á algo que te faça superar isso, que te faça ser melhor. Deve ser uma sensação única.

Volto a encostar-me na cadeira e deixo as suas mãos.

– Isso nunca te aconteceu?
– Hum… Não creio. Dessa forma haveria uma justificação do porquê das coisas não te correrem bem, poderiam ter-te levado a algo bom no final, não sei. Eu estou sempre igual, no mesmo sítio, independentemente das minhas más experiências.
– Como se fosses uma rocha onde a água do mar bate constantemente.

Fixo o meu olhar em A. Ele continua a fumar, a olhar lá para fora. Estamos na minha pequena varanda, a aproveitar os últimos raios de sol antes de ele ter de ir para casa.

– As rochas também se desgastam.

A apenas acena.

– Será ridículo se te disser que estou cansada disto?

A acaba de fumar o seu cigarro. O disco termina e o silêncio instala-se entre nós.

Não sei por quanto tempo estivémos em silêncio, a ouvir os carros que passam na rua.

– Não. Isso é apenas resultado da tua carência afetiva.

Nada digo. Eu sei que A ainda tem algo para dizer.

– Esta maldita carência manifesta-se de várias formas: no meu caso faz-me procurar incessantemente a falsa sensação de que estou vivo. A ti deixa-te paralizada e fechada no mesmo sítio, como se fosses uma rocha invisível.

De forma certeira, A acaba por fazer um resumo de tudo aquilo que ali estivemos a conversar. Nada surpreendente. Ele é mesmo assim.

– Agora és tu que brincas com as palavras.
– Digo a verdade.
– Sim, é a única verdade.

NOTA: O texto pode ser lido na sequência do conto “Parar a Tempo”: https://umolharpessoal.blogspot.com/2020/03/parar-tempo.html

0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

Nivel do indice UV alto

O índice UV encontra-se no nível 7, pelo que deverá tomar algumas precauções ao expor-se ao sol ! Actualmente estão 18º na Amadora. Aproveite para ouvir a Telefonia da Amadora! Esta informação foi verificada em May 11, 2020 at 12:38PM
%d bloggers like this: