Os Velhotes Passeiam à Noite

Helena Durães
Tempo de Leitura5 Minutos, 48 Segundos

Gosto sempre da noite. É claro que um bonito dia de sol com um azul resplandecente é extraordinário. Mas, a noite… A noite é silenciosa e dá-me aquela sensação de que me posso sempre esconder. Às vezes, a noite obriga-me a confrontar-me comigo própria, o que também pode ser exaustivo. Mas, na noite… É na noite, quando ando pelas ruas, que sinto que nada me pode acontecer. E é à noite que já vi coisas belíssimas. Como aqueles estes dois velhotes que andam de mão dada. 

Reparei logo neles assim que deixei de olhar para o céu iluminado por uma bonita lua cheia. E lá os vi, a andar, sempre de mãos dadas. Ambos com casacos pretos e com um calçado confortável. O cabelo da velhota completamente branco, enquanto que o do velhote estava coberto com uma boina castanha.

Assim que vi aquele casal fiquei apaixonada por aquela imagem. Ambos com o mesmo ritmo, ninguém

puxa por ninguém. Estão ao lado um do outro, com uma segurança nas mãos que é notável. Como se  as duas mãos fosse apenas uma. Como se os dedos de um, fossem do outro. Não passei por eles, mantive-me no meu ritmo e lá fui vendo o casal de velhotes e fazer o seu percurso.

E um pensamento nasce: quão maravilhoso será poder chegar assim, daquela maneira, àquela idade, com alguém?

Logo, de repente, vi-te. Sei que foi na minha imaginação, mas vi-te. Sabias que ainda hoje te consigo ver? Sim, é verdade. Ainda hoje te vejo todos os dias, assim que fecho os olhos. Imediatamente, não é preciso fazer nada de especial para que tal aconteça. Até te vi ali, como se estivesses a andar ao meu lado, enquanto admirava aquele casal de velhotes.

É um segredo que fica só comigo: é verdade, eu ainda te vejo. Eu ainda te vejo com o teu sorriso mais bonito. E, são muitas as vezes, a maior parte delas, em que te oiço. Naquela tua voz que saía sempre meio rouca e que eu só percebi o que me causava verdadeiramente quando te foste embora e eu a deixei de ouvir… Sabes o que é que eu às vezes também ainda vejo? O teu andar seguro e confiante, como se soubesses sempre por onde devias ir ou a onde tinhas de chegar. E vejo sempre, sempre as tuas mãos. Sim, também as vejo e sinto como encaixavam tão bem nas minhas…

Eu ainda te vejo, há certas alturas em que acredito mesmo que nunca te irei deixar de ver. Ao contrário de ti que, muito provavelmente, já nem te lembras do meu nome. Essa certeza de que já não sabes quem eu sou étraz, no minímo, um sentimento contraditório. Por um lado, creio que isso é bom. É bom que já não saibas quem eu sou. Isso dá-me um pouco de tranquilidade, afinal é sempre melhor que já não te lembres de desilusão ou do engano que te provoquei. Ninguém quer que o outro se lembre de nós por más razões. Principalmente, se nunca chegaram a perceber que não quisemos fazer mal a ninguém. Não havia más intenções entre nós. Bem, mas como dizem os populares, de boas intenções está o inferno cheio. Agora, é demasiado tarde para pensar nisso. No entanto, dá-me alguma tranquilidade que já não te lembres de nada do que se passou.

Por outro lado, ter a certeza de que realmente nada de mim resta em ti, é demasiado triste. É como se tivesse passado por uma folha em branco e não tivesse deixado nada escrito. É como se não tivesses ficado com nada meu. É isso. É esse sentido do nada que é tremendo.

Volto a minha atenção para o casal de velhotes que continua o seu passeio. São lindos. Não lhes vi as caras, mas sei que são lindos. Talvez pensem já o que farão se um deles morrer. E, aí, outro pensamento passa pela minha cabeça: quão triste será isso? Quando um deles partir… Essa certeza de que nunca mais se verão. Nunca mais se vão preparar para caminhar juntos. Nunca mais vão dar a mão. Essa ideia de que nunca mais se vê uma pessoa é tão triste. Imagino que terão passado uma vida em conjunto e que, provavelmente, fizeram o melhor que puderam nisto de tomarem conta um do outro. Mas, é precisamente por essa companhia contínua que me pergunto, como se vive com esta certeza de que não mais veremos quem amamos?

Eu sei que nunca mais te verei. E isso dá-me uma angústia… Provoca-me uma dor no peito que apenas consigo materializar com as lágrimas que me caem pelo rosto. É como se não mais soubesse de ti… Na realidade, não mais saberei de ti. Porém, sei que estarás bem. Tenho alguma coisa em mim, sei que é um pouco transcendente aquilo que digo, mas há algo que me diz que estarás bem. E que, acima de tudo, serás feliz. E isso também me dá alguma tranquilidade. A par da angústia que sinto por saber que nunca mais te verei, trago esta certeza de que és ou serás feliz. 

Nunca te poderia querer ver mal. Por muito que chore, isso nunca poderia acontecer. Foste, talvez, a única coisa que me fez sentir que estava a viver a minha vida. Muito diferente do presente. Agora, vivo como sempre vivi. Ou, melhor, como costumo dizer: sobrevivo. Sem grande emoção, nem sobressalto. Vivo como sempre imaginei que seria e a fazer o que sempre tinha pensado. Creio que foste o único que não foi programado, foste o inimaginável e, por isso, foi tão estonteante. Sabes, às vezes gostava de não estar sempre certa. Adorava. Era sinal de que nada é como eu sei que será.

O casal de velhinos param na passadeira. Esperam sem demonstrar um qualquer sinal de impaciência. O carro pára e eles avançam. Sempre juntos. Não consigo deixar de sorrir, sei que o posso fazer, afinal é de noite e ninguém olha para mim. Avanço sempre despercebida, como sempre foi. Vejo-os ao longe a subir a rua. 

O frio que me bate na cara, faz com que feche os olhos e acelere o passo. É melhor não perder o meu ritmo, mas… Deus… Que bom que é ver velhotes a passear à noite, sem medo do silêncio e da escuridão porque estão juntos.

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Diana Narysnhenko nasceu a 25 de Dezembro de 1993 em Thernopyl, Ucrânia. Desde criança que ambicionava ser artista influenciando-se em músicos de renome. Andou no Ballet e frequentou uma escola de música, na qual teve formação e, onde também aprendeu a tocar piano e bandura, um instrumento tradicional da Ucrânia. […]
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