O Vírus do Futuro Incerto – 15 Dias de Estado de Emergência

Helena Durães
Tempo de Leitura5 Minutos, 28 Segundos
Para mim são quinze dias em que as coisas mudaram.
É estranho tudo isto.
Agora é em casa. Tem de se fazer tudo em casa. Tem de se arranjar maneira de trabalhar em casa. Temos de estar em casa. Temos de falar em casa. Temos que comer e beber em casa. É tudo em casa.
Será terrível para aqueles que não têm casa ou para eles a sensação será a mesma? Não sei. Mas, estarão muito mais expostos do que qualquer um de nós, disso não haja dúvidas.
Há, no entanto, algumas coisas que me têm passado pela cabeça quase todos os dias desde que estou a cumprir, quando não tenho de sair em reportagem, o dever do isolamento. 
Os profissionais de saúde. Não só pela minha irmã, que é enfermeira e por estar em contacto direto
com os doentes infectados pelo novo coronavírus. É claro que penso nela, todos os dias, com a certeza e a confiança na sua conduta, na sua vontade de fazer sempre as coisas bem e proteger-se ao mesmo tempo. O meu coração descansa um pouco por saber isso. Mas, penso em todos os profissionais de saúde. Em como se protegem, em como também ficam doentes, passando para o lado daqueles que era suposto eles próprios ajudarem a recuperar-se. E depois salta-me sempre à vista como é que é possível que haja uma grande percentagem de profissionais de saúde nos doentes com COVID-19? Dizem que isto é uma guerra. É um combate. É uma batalha. Porém, claramente, neste caso, os soldados não estão preparados com as melhores armas para enfrentar este conflito com o inimigo invisível, como alguns gostam de romantizar. E isso é uma coisa que me chateia. Chateia-me sempre porque se isto fosse de facto uma guerra convencional, entre dois exércitos de homens, não estariam eles devidamente apetrechados? Porque raio temos sempre de valorizar as armas que tiram vida e desvalorizar aquelas que ajudam a manter a própria vida e a salvar outras?
Penso, também, quase sempre naqueles camiões do exército em Itália a transportar corpos para outras cidades, uma vez que não podem estar onde pertencem, pelo número elevado de cadáveres. Penso, também, nos caixões a sair dos hospitais de Madrid. Consecutivamente. E sempre com o jornalista a relatar: “são demasiados corpos, demasiados funerais para serem feitos no tempo devido e espaço próprio. Os familiares não se podem despedir, apenas duas pessoas por cadáver”. E sempre que penso nisto é um murro no estômago. E, sim, aqui, parece mesmo um cenário de guerra onde as baixas são consecutivas, onde não há forma de dar vazão a tudo, como se os corpos fossem objetos. Mas não. Os cadáveres não são objetos. São pessoas, porra! Mas até a sua condição de pessoa não pode ser reconhecida devidamente por causa deste vírus. Como deve ser para uma família não poder despedir-se de um ente querido? Estarem proibidos de o fazer… Mas pior do que isso é, sem dúvida, as pessoas morrerem sozinhas. As pessoas morrerem sozinhas sem se poderem despedir, sem ter a oportunidade de ter quem amam do seu lado por uma última vez. Depois vemos aquelas “alminhas” que por cá querem ir na mesma para o Algarve porque pagaram as férias. Deus!, será que não vêem o que se passa lá fora?
E, por fim, todos o dias quando vejo as notícias penso sempre: o que vai acontecer depois deste surto? O que vão fazer as pessoas que ganham um ordenado mínimo e que ficam sem trabalho? Como pagam as despesas básicas à sobrevivência? E as micro, pequenas e médias empresas? Como podem pagar aos funcionários se não produzem? Se não faturam? Se já tinham dívidas com contratos que já não eram cumpridos o que é que vão fazer agora? Entra tudo em insolvência? E as pessoas? O que se faz às pessoas? Cria-se a sopa dos pobres? Como se reergue o turismo que estava a ser o esteio do nosso crescimento económico? Tudo isto me passa pela cabeça todos os dias. No entanto, só consigo ter uma resposta para isso: “não sei”.
Apesar de tudo isto e, após quinze dias a viver esta situação intensamente, também devido ao meu trabalho, continuo a acreditar que vamos conseguir. Podem pensar que sou tola, mas continuo a acreditar que vamos dar a volta por cima e daqui a umas semanas vamos, pelo menos, poder sair de casa. Acredito piamente nisso, não o escrevo só por escrever. E é a essa esperança à qual me agarro todos os dias. 
Perguntam-me se não tenho medo. É claro que tenho medo. Tenho medo pela minha família e pelos meus amigos. Não por mim. Por eles terei sempre medo. Tenho medo do que virá depois, se terei ou não capacidade para lidar com as dificuldades no dia a dia ou no futuro. Morro de medo do futuro porque não tenho nenhuma perspectiva. Não tenho perspectiva se terei ou não trabalho, se vou conseguir voltar à minha rotina, se vou conseguir ultrapassar tudo aquilo que estava a querer esquecer antes disto tudo ter começado. Tenho medo de que as pessoas de quem gosto fiquem marcadas com isto. Tenho medo de não voltar a estar com os meus amigos da mesma maneira livre e descomprometida, a ver a bola no café e a beber uma cerveja, numa confusão tremenda, onde tudo se ouve, menos o relato. Tenho muito medo, mas faz parte. A esperança e o medo podem andar de mãos dadas. Pelo menos comigo tem sido sempre assim.
Mesmo que o futuro seja tão incerto.
A incerteza continua a ser o mais certo que temos. Como disse o Bruno Lage, treinador do Benfica, “é jogo a jogo”. Neste caso é dia a dia. Um dia de cada vez. Se o futuro é incerto então temos de viver um dia de cada vez com aquilo que esse mesmo dia nos vai apresentando.
Vamos ver se daqui a quinze dias a minha esperança se mantém.


Nota: Pintura de Said Elatab.  

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