O trabalho mata

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Teremos consciência que o trabalho como está hoje organizado nos mata? Nos meus sonhos de trabalho, nunca trabalho. Não gosto e isso reflecte-se no meu sonho. Na vida real trabalho. Para dar muito dinheiro a uma grande corporação. Eu recebo a infinitésima parte do lucro bruto. Eu tenho o desgaste, a dor, os pânicos, o medo do desemprego, a tensão de não fazer bem, de me levantar com dores nos ossos e na alma para ir trabalhar. Perdi o amor pelo trabalho. Resta-me o amor ao dinheiro que me obrigaram a gostar. Apenas para receber aquela infinitésima parte que paga as contas da vida, que são o lucro bruto das grandes corporações. Pago impostos que me abanam os alicerces e descontrolam as contas. Pago contas de sobrevivência que dão lucros brutais a grandes corporações. Tudo isto, feitas as contas, fruto do meu trabalho. Fruto do meu esgotamento físico, emocional, mental. A contas com o desgaste da minha vida familiar e pessoal, que ninguém nem nenhuma corporação ou empresa paga. 

O trabalho está a matar-me. Não vou chegar a velha com saúde e tempo para cuidar de mim, dos meus filhos e menos ainda dos meus netos. É preciso cumprir objectivos financeiros – de lucros volumosos – que serão escondidos em contas off-shore sobre os quais não são recolhidos impostos. O meu desempenho é avaliado e com ele instala-se o pânico do insucesso. A competição esmaga-me as capacidades de bem fazer. O mau ambiente de trabalho é a nuvem negra constante semelhante ao pó levantado pelo meteorito que destruiu os dinossauros. 

Em resumo, o trabalho está a deixar-me inseguro, sem auto-estima, com medo de amanhã. Das manhãs em que preciso de acordar para ir trabalhar. Sempre. Está a matar-me. 

“Vestir a camisola” é sinónimo hoje de um pré- suicídio. Em lugar das 8 horas conquistadas em 1890 na América do Norte e em Portugal após o 25 de Abril de 1974, trabalhamos 14, como os nossos antepassados escravos. Sem direito a casa, pão, saúde, educação e justiça. Pagamos tudo do nosso precário e rasgado bolso. Fruto do esgotamento. 

Nos meus sonhos não trabalho. Porque sei que a pressão me vai desgastar, me vai fazer adoecer até me matar. E se não o fizer? Eu que sou o 4º poder, torno-me indigente. Tenho medo de ficar sem tecto, sem pão. Como mal, durmo pior, tenho um cancro, um AVC, sofri um ataque cardíaco. E ninguém quer saber. Estão todos preocupados a viver como eu. A morrer como eu. Miseráveis.

O trabalho de hoje tornou-se tão desumano quanto foi a escravatura. Éramos miseráveis e somos miseráveis nesta roda perdida. Se alguém quiser viver como no trabalho dos meus sonhos, alguém precisará aproveitar o meu trabalho miserável, com o meu salário miserável para também ele morrer esgotado. De morte matada ou de morte auto-assistida. No Japão esta última já acontece com frequência. Para quê pergunto? Se eu morrer a minha organização substitui-me rapidamente por outro miserável. 

Se é possível quebrar este padrão? Sem dúvida. Toda a obra com mão humana, terá de ter vontade humana para ser modificada. Mão humana da política, das organizações, de mim. Fazer mais como no meu sonho. Lá onde controlo a minha existência, onde me dou menos ao trabalho, consumo menos, tenho mais tempo para mim e para os meus. Lá, onde sou menos miserável, sou até mais humana. 

Imaginem que no meu sonho, eu sou humana vivendo uma vida humana. 

Um dia, quando as organizações perceberem que estamos todos mortos de trabalho, percebem o quanto já são miseráveis. Desejo que o percebam antes. Que percebam ontem que eu sou o quarto poder. Eles são os miseráveis se não o fizerem.

Anabela Ferreira

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