O Preconceito Nunca Tem Graça

Helena Durães
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Há uns dias vi um vídeo com “jovens” influencers, ou lá o que eram!, e eis que alguém fala da Amadora: “nem pensar que vou à Amadora”, foi assim algo do género que o rapaz, que não devia ter mais de 19 anos, disse.
Como percebi que aquilo era a sério não achei graça nenhuma. Não teve piada porque, o preconceito, nunca tem graça.
Se falamos em piada declarada, tudo bem. Vejamos. Quantos de nós, amadorenses, não estivemos com outras pessoas que, quando descobrem que somos da Amadora, não usam o cliché “cuidado, não se metam com ela que é da Amadora”? Como é uma piada, aceito, lido bem e acho graça. E, se querem que vos diga, ainda sinto mais orgulho em dizer que sou da Amadora. Aqui não se trata de preconceito. Trata-se de graça e aí tudo é possível.
Aquilo que mais me deixou surpreendida, no video de que falo no início do texto, é que quem diz que não vai à Amadora, deixando nas entrelinhas que assim é porque aquilo é muito perigoso, é um miúdo. Sim. É um miúdo de 18/19 anos. E eu penso, como é possível que um jovem ainda tenha este tipo de pensamento preconceituoso relativo a uma cidade? 
Bem sei que existe a ideia de que este tipo de preconceito está ligado a pessoas e gerações mais velhas. Eu própria também tenho essa sensação. Por isso é que este tipo de preconceito em tão tenra idade me faz questionar muita coisa, ainda para mais quando estamos a viver tempos tão desafiantes onde movimentos e ideias que se julgavam enterradas estão a surgir à luz do dia com toda a força e preponderância.
Sim, falo daquilo que aconteceu à porta da SOS Racismo e das ameaças feitas por um movimento nacionalista e fascista a dezenas de pessoas. Como é possível que em pleno século XXI os ideais fascistas estejam a angariar mais adeptos? É certo que estes movimentos, infelizmente, nunca desapareceram. Sempre estiveram na sombra da sociedade ao longo dos anos a “marinar”. Bastava estar atento aos Relatórios de Segurança Interna. Todos os anos este grupos apareciam referenciados. 
Aquilo que estamos a assistir hoje em dia é ao ressurgimento de movimentos que, entre outras premissas, defendem a supremacia branca. Mas que merda é essa da supremacia branca? Não consigo compreender como é que a cor da pele nos torna superiores a outros que têm uma cor diferente. Isso não faz qualquer sentido. Não há razão para isso. Que busca incessante é essa do poder? Somos melhores, por isso temos de mandar noutros que nos são inferiores. Não são inferiores porque não têm conhecimento, por exemplo. São inferiores porque têm uma cor diferente da minha. Mas em que livro científico é que isto vem comprovado? Com uma simples premissa, estas teorias caem por terra: todos os humanos são iguais. São humanamente iguais. Poderão ser distinto, pelo nível de conhecimento que têm (que qualquer um pode ter elevado se tiver acesso à educação de igual modo), pelo nível económico, pela sua cultura. Não é por ter uma cultura distinta de outro fulano que me torna superior ou inferior a esse mesmo fulano. Não. Não é assim.
O que tem este desabafo com o exemplo do video de que falo no início do texto? Tudo. Falhamos todos os dias como sociedade quando vemos jovens com um preconceito daquele nível. Da mesma maneira que também falhamos como sociedade quando vemos que os movimentos fascistas e racistas estão a vir ao de cima e, parece-me, a crescer.
O Estado falha na Educação quando em pleno século XXI os seus jovens continuam a prepetuar preconceitos baseados na raça ou na desinformação. O Estado falha na Educação quando não consegue transmitir aos seus cidadãos mais novos a história, as evidências, o conhecimento que pode tornar as gerações vindouras mais fortes contra o populismo e os extremismos fáceis.
Sempre defendi que só o conhecimento democrático, ou seja, acessível a todos de igual forma, ricos ou pobres, éque será possível construir uma sociedade livre, mais alerta e menos permeável a movimentos extremistas. É com tristeza que vejo que estamos a caminhar para o oposto.
Sei bem que ter na Assembleia da República um deputado de um partido com ligações manhosas a skins, a nacionalistas e religião, é o mote perfeito para que estes movimentos que andavam escondidos terem força para virem à tona. E isso é o que me deixa ainda mais triste. Somos um povo que foi capaz de eleger este homem para estar na Assembleia da República e mais devastador ainda é perceber que esse mesmo partido está a ganhar mais espaço nas sondagens.
Tudo isto demonstra que existe muita gente que partilha destas ideias fascistas e totalitárias. Talvez não sejamos um povo que esteja de bem com a sua história e com o seu carácter acolhedor e imigrante. Talvez não e isso é preocupante. Porque estamos a renegar aquilo que somos, estamos a renegar a nossa história e tudo isto me parece paradoxal.
Estes são como todos os outros: prometem, mas quando lá chegarem não farão nada. Apenas estarão a receber à grande como aqueles que criticam. Não há salvadores da pátria. Os únicos salvadores da pátria somos nós. Cada um de nós com o seu papel de cidadão consciente e tolerante. Nós podemos salvar a nossa pátria com tolerância e a defender a nossa e a liberdade dos outros.
Por favor, leiam. Leiam e leiam. É chato? Então vejam filmes. Digo já um de caras: American History X (América Proibida, em português). Está tudo lá. Está tudo lá e tão bem explicado. Não sejam tansos e, por favor, informem-se. 
No fim de contas, ao rapaz que não quer pôr os pés na Amadora… Vai ler, também. A Amadora é uma cidade com várias culturas, com virtudes e defeitos, como qualquer outro sítio. Mas sabes o que é que a Amadora dá a todos aqueles que aqui crescem e vivem? A capacidade de trabalho, de persistência e de luta contra todas as adversidades para atingirmos os nossos objetivos. É por isso que somos tão bons. É por isso que aqui nasceram jogadores de futebol internacionais, atores, escritores, pintores, empresários, atletas… mas também pessoas que todos os dias fazem o que podem e não podem para pôr comida na mesa, que ao mais simples gesto de simpatia te acolhem com um carinhoso abraço, mas também aqueles que todos os dias se levantam às cinco da manhã e chegam a casa à meia-noite com o sentimento de dever cumprido. São assim as gentes da Amadora. E isso é maravilhoso.
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