O Povo é Manso!

Jacinto Furtado
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Pinheiro de Azevedo disse, em Novembro de 1975 quase no final do chamado verão quente, “calma o povo é sereno, o povo é sereno, é só fumaça!”.

Se nessa altura o povo era sereno se, nessa altura, era só fumaça o facto é que o povo passou de sereno a manso e a fumaça transformou-se num incêndio de proporções dantescas.

O Povo é Manso e esta merda está toda a arder!

O Banco de Portugal divulgou hoje o relatório sobre os devedores à banca, divulgação devidamente autorizada pelo Parlamento, é bom recordarmos que, numa primeira fase, o Banco de Portugal nem sequer queria dar a informação, sobre os caloteiros, ao Parlamento. 

Contrariado lá a enviou e, ainda mais contrariado lá divulgou um relatório sobre os devedores à banca. Desenganem-se quem pensa que o Banco de Portugal divulga alguma coisa, o que faz é, num relatório[1]com 33 páginas distribuir fardos de feno para entreter mansos. 

Não é de estranhar que as instituições, também as instituições, mas não só as instituições continuem a gozar com o Povo. No passado Domingo sete milhões duzentos e quarenta e sete mil seiscentos e oitenta mansos e mansas não cumpriram o seu dever de votar optando por ficar na mansidão. Votaram três milhões trezentos e doze mil seiscentos e noventa e dois menos mansos, mas, todavia, domesticados que, de forma domesticada, assistiram ao triste espectáculo da contagem de cabeças com as encenações das grandes vitórias e das grandes derrotas quando, tudo esmiuçado, não há nada que se aproveite. 

Os mansos (e as mansas) domesticados continuam a olhar para os resultados eleitorais como os fanáticos do futebol olham para os resultados do clube deles, em caso de dúvida a culpa é do árbitro e o resto que se lixe. Os mansos e as mansas que ficaram em casa no passado Domingo deviam ter a noção que a sua participação, o seu voto, é de todos o mais importante. São mansos, mas não fazem, pelo menos ainda não fazem, parte dos domesticados e isso faz toda a diferença, deixa os políticos preocupados porque perdem o peso da sua base de apoio e são obrigados a provar que merecem o voto ou serão castigados seriamente nas próximas eleições.

Político a apregoar uma baixa abstenção é como um cão a pedir sarna para se coçar, fica bem na fotografia mas não lhes interessa, sabem que com a base de apoio que têm, como os fanáticos seguidores da cor do clube, tem a eleição garantida e depois os domesticados ainda não fanatizados logo definem quem é o vencedor sendo que isto é mais ou menos como no futebol, há aquele conjunto de clubes que pode chegar a campeão e os outros que cumprem calendário e vão a jogo mas, rezam para não descer de divisão porque a porra das subvenções dão muito jeito.

Já referi a palhaçada que é o relatório do Banco de Portugal, num outro texto escrevi uma carta aos queridos banqueirosdeste país a disponibilizar-me para, também eu, os ajudar a livrarem-se desse mal terrível que é o excesso de liquidez isto porque, no seguimento da audição na comissão parlamentar onde foi ouvido Joe Berardo este ter afirmado, sem qualquer pudor ou ponta de vergonha, que nada devia aos bancos tendo tido o absoluto desplante de reagir a uma intervenção da deputada Cecília Meireles que afirmou “isto está a custar-nos uma pipa de dinheiro”respondeu o alarve “a mim não!”.

Hoje, em nova audição na mesma comissão, Mário Gil também diz, sem vergonha, sem pudor e com um total ar de que é intocável, “eu não devo nada!”.

O Povo que é manso, continua a assistir, numa absoluta passividade. A assistir e a pagar!

Hoje mesmo os órgãos de comunicação social noticiavam que a autoridade tributária em conjunto com a GNR estavam a realizar uma operação stop onde era verificado se os condutores tinham dividas ao fisco e, se as tivessem caso o carro estivesse em seu nome, ou pagavam ou o carro era penhorado. Esta musculada iniciativa já foi, entretanto, suspensa pelo secretário de estado.

É este o mesmo Estado que é gozado (eventualmente porque tem interesse nisso), pelos grandes devedores, por aqueles que não pagam porque, devendo milhões, dizem que nada devem e nada têm, é este o Estado que, com cumplicidade, assiste ao perdão de dívidas imperdoáveis, é este o Estado que é complacente com os abutres que perseguem os que, de facto, nada têm e pouco devem.

O António Garcia Pereira, num excelente texto (O insustentável peso da arrogância), explicou que só não se cobram estes milhões se não se quiser uma vez que há mecanismos previstos na lei para irmos atrás deste dinheiro e destes bens que são nossos e que nos foram roubados.

É fácil por meia dúzia de euros roubar, o termo correcto é mesmo esse roubar, aos que nada têm a casa, o carro a alguém e forjar vendas muito abaixo do valor de mercado ficando, em muitos casos esses que nada têm sem a casa, sem o carro, sem a vida e continuando com uma dívida. É este o Estado que permite que empresas abutres, todas elas, como convém, offshoresde proveniência duvidosa, certamente propriedade de gente ainda mais duvidosa, fiquem com património por um décimo do valor para que os bancos forjem resultados e para que os duvidosos donos das duvidosas empresas possam enriquecer à conta da miséria alheia.

Já algum membro do governo ou até mesmo dum partido representado no Parlamento se lembrou de ir à fonte, entenda-se por fonte saber quem está por trás destas empresas? Não? Claro que não, não interessa, com jeito até são propriedade de gente que tem o nome registado na agenda de contactos do telemóvel e alguns com direito a tecla de marcação rápida.

Salgueiro Maia disse na noite de 24 de Abril de 1974 aos militares formados na parada da Escola Prática de Cavalaria em Santarém, “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos.”

Pois este é o estado a que chegámos, um estado habitado por um Povo maioritariamente manso e parcialmente domesticado!

Jacinto Furtado


[1]O relatório do Banco de Portugal pode ser consultado aqui

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