O Homem que Não Bebe Café

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 32 Segundos
O cheiro forte entra nas narinas e não sai mais.
A. não entende como é possível que este seja o pretexto para as pessoas se verem. Porque raio faria sentido dois ou mais indivíduos se encontrarem com a desculpa de beberem um café? Porque tinha de ser café?
“Os amigos deveriam encontrar-se para beber uma outra coisa… Um chá, uma água, um sumo, uma cerveja… Sim. As pessoas encontrar-se-iam para beber uma cerveja. Agora, café?”, pensava A. sentado numa das cadeiras que circundava a mesa do canto do café.
“Ainda por cima dizem que é amargo… E o barulho que a máquina faz a trabalhar! Aquela água

castanha, com espuma fininha a cobrir o líquido… “

No entanto, A. não pensava que isso era estranho ou esquisito. A composição visual do café era normal, nem feia nem bonita.
A chávena também não lhe fazia impressão, muito embora não lhe fizesse sentido que aquela quantidade mínima de líquido num objecto tão pequeno pudesse ser a salvação de alguém que diz que precisa de acordar, por exemplo.
Mas A. sabe bem o que lhe faz impressão em tudo aquilo.
Sim. É o cheiro. É aquele cheiro intenso, ao torrado misturado com algo (sabe-se lá o quê!), que lhe sobe pelas narinas e faz com que se instale no seu cérebro. É uma sensação que se espalha por todo o seu corpo, como se ele não tivesse controlo sobre a náusea que aquilo lhe provoca.
É como se aquele aroma despoletasse uma qualquer ligação obscura entre o seu nariz e o seu cérebro, fazendo com que automaticamente o seu estômago se embrulhasse.
Sim.
A. não usava o café como desculpa fosse para o que fosse.
A. detestava sentir o cheiro do café.
A. é um homem que não bebe café.
E não bebe café não por uma qualquer espécie de trauma ou má memória (pelo menos que se lembre!). Este homem não bebe café porque, acima de tudo, não quer ficar mal disposto. Aquele cheiro revolve-lhe as entranhas e fá-lo perder o sentido do que está a fazer… A partir do momento em que aquele aroma entra no seu corpo, A. apenas se concentra na impressão que se instala no seu ser… Uma impressão que o deixa desconfortável e aborrecido.
Estar num café pode, por vezes, tornar-se, também, num desafio. A. tem sempre de escolher uma mesa na esplanada, com mais sorte no verão, ou uma que fique longe do balcão.
A família e os amigos já sabem. Não perguntam porquê, apenas tomam como uma verdade adquirida que A. não gosta de café, afinal sempre foi assim que o conheceram. Nem sequer tentam fazer com que ele experimente. É como se estivesse no seu BI: Olá, eu sou A. e não gosto de café. É uma característica de A., tal como a sua data de nascimento ou o seu tipo sanguíneo.
Não há nem um esforço para tentar mudá-lo, porque, a família e os amigos amam-no como ele é.
E não é por isso que não está com os seus amigos. Muito pelo contrário, não tem complexos com essa diferença de gostos. E se precisa de estar com alguém pela primeira vez, coloca logo em cima da mesa esta premissa de não beber café. Arranje-se uma alternativa! Se realmente quiser estar com essa pessoa, é garantido que não gostar de café não será um problema. A. é um homem de ação e simples. Quer uma coisa e têm-na.
Para quem o acaba de conhecer, primeiro, é meio estranho ouvi-lo dizer que não gosta de café. E aí vem a segunda pergunta: mas, porquê?
E ele responde de forma peremptória: “não gosto do cheiro. E nunca o provei.”
Há quem não consiga disfarçar, olhando-o de forma desconfiada.
Depois, há outros que ficam surpreendidos.
Ou ainda há aqueles que o olham com fascínio.
Afinal, quão caricato é encontrar alguém que não goste de café sem nunca sequer o ter experimentado? Quem fica fascinado por esta característica tão vincada quer descobrir as razões que o levam a desprezar o café. Querem descobrir algum motivo obscuro que os faça compreender esta falta de simpatia pelo café. Até porque é comum a ideia de que apenas se pode dizer que não se gosta de algo depois de o provar. Mas A. é um homem de sentidos. Se o seu olfacto não lhe permite experimentar o café, então ele nem o prova.
A. nunca provou café.
A. é o exemplo de que os nossos sentidos podem ser muito mais fortes do que aquilo que experimentamos efectivamente.
A. é a prova de como o cheiro pode ser desbloqueador ou bloqueador, dependendo das situações.
Mas A. não se importa. A. diz com frontalidade e com um certo orgulho “Eu não bebo café. Detesto o cheiro”. E quando assim é nem dá vontade de perceber o porquê, aceitamos a sua frontalidade e pronto.
A. é um homem que não bebe café.
Ponto final.
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