O Amor que Nunca Dançámos

Helena Durães
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Assim que dou os primeiros passos é como se entrasse num mundo diferente, sem barreiras ou sofrimento. Como se fosse completamente livre. Há muito que deixei de querer controlar aquilo em que penso quando começo a dançar. Não me importa. É como se nesses momentos fosse realmente eu. E quando somos realmente nós, podemos pensar naquilo que quisermos.

E isso é libertador.

Penso em ti. Sempre. Nunca dançámos os dois, a vida não nos permitiu esse tempo. Mas, quando agora danço e fecho os olhos é a ti que vejo, sentado naquele muro, ainda em cimento, a olhar para mim como sempre o fazias. E que maravilhoso que era. Agora consigo dar-me conta de como era maravilhoso, talvez na altura não lhe tenha dado a devida importância.

Mas, agora… Agora que não te tenho é como se te conseguisse ver ainda melhor.

Fará sentido aquilo que digo?
Será possível conseguirmos ver alguém, na sua maior plenitude, apenas e só na nossa mente? Creio que sim. Tu mostras-me que sim. Mesmo que não o saibas.
Enquanto danço, de forma leve, gosto sempre de ter os olhos fechados, precisamente porque dessa forma consigo ver-te mais nitidamente. Como se estivesses ali comigo. Num lugar só nosso. Sim, a dança é para mim um lugar só nosso e talvez seja por isso que te consiga ver com uma clareza única, decifrando o teu ar despreocupado enquanto esperas por mim. “Só mais um pouco”, dizia eu a sorrir enquanto não conseguia parar de dançar e tu só te rias da minha descontração e deixavas-te ficar, ali, no muro. Um perna descaída, outra alçada e o teu olhar sobre o campo verde que florescia com os primeiros sinais da primavera.

Agora já não sei se é a dança esse lugar só nosso ou se és tu próprio esse lugar. Não sei. Para ser sincera, tenho medo de o descobrir. Se descobrir que tu és esse meu lugar mais recôndito, tudo se irá tornar ainda mais doloroso quando abrir os olhos.

A canção que danço é calma. Apenas uma voz, um piano e uma guitarra. Perfeita para nós, ainda pra mais com todas estas belas palavras que tão bem define aquilo que sinto neste momento. E sei bem que sou apenas e só eu a sentir-me desta forma. Não faz mal, até prefiro. Seria também uma tragédia se também tu te sentisses assim. Eu sei que não sentes, talvez até nunca me tenhas sentido da mesma forma que eu te senti. E, como te disse sempre, está tudo bem. É assim que tudo tem de ser.
Ficam aquelas boas memórias em que tudo me parecia possível. Eu seria possível de encarar o mundo e de ser mais forte. No entanto, tudo aquilo que acabámos por viver também me mostrou que não é assim. Não sou capaz de ganhar a tudo e a todos, de enfrentar todas as tormentas, de ser forte. Não. Nem de longe. Não sendo essa pessoa que julguei ser por tanto tempo, escolhi viver com as minhas recordações e amar-te… Assim, em silêncio, ao som das mais belas canções.
Nunca entendi como fui capaz de não me aperceber dos sinais, sabes?

Que amor é este que para acontecer tive de esconder aquilo que sou? É confuso, não é? Mas o ser humano é capaz de amar seja de que forma for. Seja ou não verdadeiro com o outro, o ser humano é capaz de amar. Eu fui capaz de te amar sem nunca te mostrar tudo aquilo que sou. Talvez porque o amor nos leva para além do pensamento, da razão, do sentido comum. Se há um sentimento capaz de ir para aquilo que somos, para além do tempo que vivemos, para além do local onde estamos é, sem dúvida, o amor.

Tal como a canção que me leva a dançar, como se fosse uma leve brisa, o meu amor por ti nasceu

assim, de mansinho, assente nas palavras e na melodia que eu escutava, quase imperceptível, cada vez que estavas na minha presença.

Um amor que nasceu escondido. Não só de ti, mas também de mim. Eu não o sabia. Só com a concretização do célebre cliché “só damos conta do que temos quando o perdemos” é que consegui dar nome a tudo aquilo que sentia. Resta-me guardá-lo como um bem precioso, como um segredo… Tal e qual como guardo a dança. Será sempre algo meu, que guardo e protejo com todo o meu carinho, com toda a minha sensibilidade e a minha imaginação.

Nunca imaginaste como seria se estivéssemos só nós os dois no mundo, pois não? Claro que não… Isso são só pensamentos de uma tola como eu que acredita que é capaz de fazer, de ter, de sentir o que qualquer um faz, tem ou sente. Infelizmente, não. Deus sabe como eu gostava de ser como todos os outros. Deus sabe como gostava de ser como tu. De não sentir sempre com tanta intensidade tudo aquilo que vivo. Efetivamente, não sou assim. Não sou como tu.
Com tudo isto, sei bem que esse foi um dos dois maiores erros que cometi. Acreditar que poderia estar à tua altura, que poderia ser aquilo que tu precisavas naquele momento. Depois de todos estes anos ainda não consigo entender como raio fui eu pensar que tu precisavas de mim. Que havia algo em ti, em nós de sobrenatural, que nos puxava constantemente para estarmos juntos. Isso nunca existiu. Existiu apenas a vontade dois simples seres humanos que, por motivos distintos, quiseram encontrar-se.

O meu segundo maior erro foi acreditar que… Que aquele teu sorriso enquanto me esperavas naquele muro seria eterno… Que sempre que eu quisesse eu iria poder vê-lo. Mas não. Claro que não. Nada é eterno. Aliás, há, talvez, algo que seja eterno: este amor que tenho por ti. Pelo menos, nunca se apagou mesmo com todos os homens que conheci, mesmo com todas as aventuras que tive. Invariavelmente e como se fosse o mais constante de toda a minha vida, este amor manteve-se sempre aqui, no meu coração, como parte integrante do meu ser.

A música termina e dou-me conta de que talvez este meu amor seja também uma forma de me lembrar sempre de quem sou. Sou a mulher que te ama sem barreiras de tempo ou de espaço. Serei sempre esta mulher que te ama mesmo sabendo que não estás. Nem nunca mais estarás. Por mais momentos efémeros que viva, tu estarás sempre aqui, tu nunca serás fugaz.

NOTA:
Música que baseia este texto:  “I Can´t Stop Loving You”, versão de Bryan Adams (originalmente o tema é de Don Gibson).

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