Inquietude Constante

Helena Durães
Tempo de Leitura2 Minutos, 18 Segundos

Gostava de te ver entrar por aquela porta. Não com o teu mesmo ar desconstraído, mas com a expressão de quem está preocupado. 

Gostava de te ver entrar por aquela porta e de ficar surpreendida. Tão surpreendida que não teria quaisquer palavras que pudesse proferir. Que, finalmente, me fizesses sentir que eu valho alguma coisa… nem que fosse uma coisa mesmo pequenina. Bastar-me-ia.

Gostava de te ver entrar por aquela porta e que me deixasses sem chão. Que me deixasses sem chão, como daquela vez. 

Queria que me deixasses sem chão, que me deixasses suspensa sem saber o que fazer, perdida por te ver de novo à minha frente como tantas vezes imaginei.

Queria que me deixasses sem chão, sentindo cada uma das tuas mãos na minha face, não me deixando cair, como se ficássemos os dois suspensos no ar, num qualquer estado etéreo onde a existência é mais do que fisíca.

Queria que me deixasses sem chão para que com o teu simples gesto me mostrasses que se pode levitar, dançar e voar sem nunca assentar.

Queria que nunca me deixasses assentar ao ouvir as tuas palavras… as tuas palavras de desculpa, de remorso e de perdão, provas de que nunca me esqueceste. Como eu queria saber que nunca me esqueceste!

Queria que nunca me deixasses assentar com o tom de desespero na tua voz. Um tom que seria distinto

de qualquer outro que eu tenha ouvido vindo de ti. Um  tom que me mostraria a tua sinceridade e honestidade, que eu julguei, mal, que alguma vez tivesse conhecido.

Queria que nunca me deixasses assentar com o teu beijo único e completo, inconfundível, de desejo e despeito, mostrando-me que há algo certo no meio do errado.

Queria que me mostrasses que há alguma coisa certa no meio de todo este erro e que toda esta minha dor teria uma justificação.

Queria que me mostrasses que há alguma coisa certa no meio de todo este erro, para que pudesse voltar a conhecer o sentido das coisas.

Queria que me mostrasses que há alguma coisa certa no meio de todo este erro, para que pudesse voltar a acreditar que tudo acontece por uma razão… Até o sofrimento que me corrói a alma teria uma razão e seria compreensível. Queria tanto que voltasses a entrar por aquela porta…

Que voltasses a entrar por aquela porta para que pudesse de novo

Sentir a tua presença

Olhar-te nos olhos

Ouvir a tua voz

Pegar-te nas mãos

Afagar-te o cabelo

Desenhar a tua face com os meus dedos

Escrever-te uma outra história

Para que enfim pudesse descansar.

Imagem: Pintura de Paula Rego. Título: “Swallows”

0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

Empacotar e sair. Foste despedido!

Empacotar e sair. Foste despedido! A história breve de um personagem Shakespeareano, o Renegado A cena tem a Casa Branca de fundo, na sala oval, um rei chora debaixo da secretária. Está a empacotar as inutilidades. Os inútensílios que trazem memórias amargamente doces de um poder que se julga não […]
%d bloggers like this: