Imaginação À Chuva

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 54 Segundos
A chuva que cai incessantemente no seu casaco fá-la lembrar que tem de acelerar o passo. Por vontade dela, ela iria ao seu ritmo, devagar, sem se importar com o tempo, o frio e a chuva. Apenas não quer ficar doente, não lhe dá jeito nenhum. Afinal, ela detesta que alguém repare nela, ainda pra mais se for por estar com o pingo no nariz.
Mesmo assim, nem o vento lhe dá a vontade necessária para chegar rápido a casa. Então, ela apenas usa a sua imaginação.
Andando nas ruas escuras, a desviar-se das poças de água que estão em todo o lado, alguém a chama.
Mas ela não presta atenção. Seria impossível alguém reconhecê-la, o capuz que usa é perfeito para a tornar um completa desconhecida. 
Não é para mim, ela pensa. Por isso, nem olha.
Mas, aquela voz continua a chamá-la e agora ouve passos rápidos. Alguém está a correr atrás de si. Deus. Como é que alguém poderá saber que é ela no meio daquela escuridão?
Ela vira-se de repente e para. 
É ele. É ele que está ali… Por ela? Terá sido um acaso? Meu Deus, como ela desejou poder vê-lo durante todo este tempo e ele nunca apareceu. Como era possível ele estar ali, a chamá-la, a perguntar-lhe se ela estava bem no último sítio onde ela imaginara que isto poderia acontecer?
Da mesma maneira repentina com que ele entrou na sua vida, ele saiu. Foi estranho, mais para ela do que para ele, com toda a certeza. 
Foi a melhor coisa que lhe poderia ter acontecido naquela altura. Quando ele entrou na sua vida, por aqueles breves instantes, faz tempo!, foi a melhor coisa que lhe tinha acontecido. Depois nunca mais se viram, não que ela não estivesse à espera disso. Ela estava. Mas o vazio que trazia dentro de si antes de ele o preencher, instalou-se novamente e ela teve de se habituar a viver sem a sua presença, fazendo-a questionar se afinal teria valido a pena que ele tivesse preenchido aquele vazio, por aqueles breves dias, para depois esse mesmo vazio voltar até si.
E, agora, ele estava ali, a dar-lhe a mão, a puxá-la para si, para a retirar debaixo da chuva que caia sem parar.
– O que estás aqui a fazer à chuva?
– Eu? Isso pergunto eu.
Ela sorria ao mesmo tempo que se instalavam debaixo das varandas de um dos velhos prédios. Sorria ao mesmo tempo que olhava para os seus olhos, profundamente, admirando toda a sua beleza. Irrompia no rosto dele o seu sorrio maior, aquele que ficou gravado na memória dela para sempre, ela desconfia, como uma das coisas mais belas que já vira.
– Estava aqui de passagem. Vim ver uns amigos e não estava bem a acreditar que eras tu a andar debaixo desta chuva!
– Estava a ir para casa – ela diz honestamente, como sempre tinha feito com ele.
– Não podes. Vais-te constipar, anda! – ele agarra na sua mão novamente e fá-la correr atrás dele.
– Ei! Mas para onde vamos?
– Já vês! – Ele diz-lhe a rir, como se a coisa mais divertida do mundo fosse aquele momento e ela apenas se pode rir também, não acreditando no que se está a passar. Não acreditando que está ali, novamente, com ele na sua frente, como se nada se tivesse passado. Como se nunca se tivessem separado.
Finalmente, chegam ao carro. Ela e ele entram rapidamente.
– Estou encharcada. O carro vai ficar intratável.
Ele encolhe os ombros.
– Esquece isso. Vai dar tempo de secar.
– Vai?
Ele acena e liga o carro.
– E tu sabes para onde me levar? – a pergunta sai num tom desconfiado.
– Claro que sei. Temos um sítio para estar antes e te levar a casa.
Os olhos dela brilham.
Depois de tanto tempo, eles continuam com a mesma cumplicidade. Ela nada diz e deixa-se guiar.
Quando dá por si, ela está a rir-se sozinha, já perto de casa. Realmente, a sua imaginação está sempre a demonstrar-lhe como pode ser poderosa. Quase sem se dar conta, já está perto de casa. A chuva não parou, o seu casaco está ainda mais pesado, o seu cachecol húmido, as pontas dos seus cabelos molhadas… E, sem nada mudar, o enorme vazio em si que se manifesta. Foi tudo fruto da sua imaginação… Como se ele fosse regressar, estar novamente com ela e fazê-la esquecer da insipidez e da insignificância da sua existência.
Finalmente, ela coloca a chave na porta para a abrir. E aquele embate com a realidade de todos os dias entra na sua cabeça e ela sabe que não lhe resta mais nada senão cumprir o seu papel, acomodar-se à sua vida de sempre e viver sem aquele entusiasmo latente, que lhe fez vibrar o coração, como há muito não acontecia. Ela sabe que o amor nunca chegará, mas, recordando-se daquilo que viveu com ele, ela sabe que existem sentimentos para além do amor, da paixão… para além de tudo. Se calhar existem sentimentos para os quais nem sequer haja ainda um nome.
Ela fecha a porta, e pousa a sua mala molhada. Vai para o quarto e tira a sua gabardina, coloca-a na cadeira. Agora só tem uma simples missão: não ficar doente, por isso é melhor mudar de roupa, agora só tem de cumprir esse objetivo e fechar em si toda a sua imaginação, memórias e os sonhos que já perdeu. 
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