Harmonia Desconcertante

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 27 Segundos

A tarde está calma. Finalmente, o calor apareceu, o que me faz acreditar que, de facto, é verão. Há momentos em que parece que o tempo pára. Pára simplesmente e ali fico junto da natureza, num ambiente tão distinto daquilo que é o dia a dia. Dizem que é isso que faz com que aqui se fique com a sensação de que o tempo pára. Porque este local é distinto de tudo o resto. Não sei se será assim… Porém, às vezes pergunto-me se não o deveria experimentar. Ou seja, tornar esta calmaria da natureza o quotidiano e a selva da urbe no distinto.

Sei bem que por mais bonitos que sejam os lugares se aí estivermos sozinhos, talvez não consigamos experienciar esta beleza por completo. Por vezes, a harmonia que outros nos conseguem proporcionar, chega a ser desconcertante. Como se fossem um colo permanente onde aí me posso sentar e assim ficar. É verdade que, por vezes, também me passa pela cabeça que se deveria falar mais, sorrir mais, questionar mais. No fundo, fazer com que a partilha seja cada vez maior. No entanto, descansar do peso que trago constantemente, leva-me, muitas vezes, a ficar em silêncio. É um bom silêncio onde na minha cabeça não se passa mais nada. E só consigo isso aqui, neste colo. 

E sentir que nos amam é maravilhoso. Sem amarras, sem feitios difíceis, sem sofrimento, sem saturação. Simplesmente e de forma inequívoca amam-nos. E isso é… É extraordinário. Talvez seja esse o significado do verdadeiro amor desinteressado e livre. Mas poderoso e estóico. É até engraçado percebermos isso… E… Realmente, tinhamos tudo para que isso não fosse assim. Quase todas as condicionantes à nossa volta poderiam ter-nos levado para o caminho oposto: uma família com poucos laços definidos, longínqua, cheia de obrigações sociais. Mas, não. Não é assim. Há pouquíssimas coisas que tenha feito das quais sinto orgulho. Dar-me conta daquilo que consegui criar com estes que aqui estão, enche-me de orgulho. Sempre mais por eles do que por mim. Um orgulho por termos sido capazes de amar. Num sentido puro e livre. Este seja, talvez, dos melhores feitos na minha vida.

Antes de aqui chegar, pensei que, por diferentes razões de outros e minhas, até neste local esta harmonia desconcertante poderia ter mudado. Mas, não. Ela está exactamente igual, como se estivesse cristalizado no tempo. E isso é, de facto, extraordinariamente maravilhoso. Já o tinha tido noutras alturas, mas este é também o exemplo de que por mais tempo que passe, por mais traumas que existam, por mais que tudo pareça areia que nos foge por entre os dedos das mãos… Aquilo que sinto quando aqui estou é exactamente o mesmo: harmonia. Uma harmonia que aqui terá sempre a marca de cada um daqueles que me circunda e que me mostra que é possível gostarmos uns dos outros por aquilo que somos. Sempre. E isso comove-me. Comove-me e traz à minha tona o meu sentimentalismo, talvez e admito, exacerbado. Quando recalcamos diariamente os nossos sentimentos e a nossa sensibilidade, é natural que quando sintamos como somos queridos, que esse sentimentalismo venha todo cá para fora.

Hoje, de manhã, quando peguei nos ténis e me pus a caminho, decidi ir por um sítio diferente. Apetecia-me andar, mas não na estrada. Queria estar no meio do verde, sentir o cheiro das árvores, ouvir os pássaros a cantar, sem carros nem alcatrão. Comecei por subir o monte, devagar e, ao mesmo tempo, expectante do que poderia vir a contar. Nunca tinha andado por ali, mas fui, sempre em frente. E com uma única segurança: “qualquer coisa que pudesse acontecer, voltava para trás”. Raramente, sinto essa proteção, essa certeza de que se as coisas correrem mal, tenho alguma espécie de solução. Talvez esta segurança de poder recuar, tenha-me ajudado a não ter medo e de apenas seguir em frente.

Fui andando, andando, subindo, desviei-me das silvas, dos troncos caídos no chão. Alguns mosquitos pousavam em mim e eu enxotava-os. Tendo sempre cuidado para não me “espalhar” pelo caminho, cheguei até um ponto alto. 

Parei e admirei a vista.

Há, realmente, qualquer coisa de mágico neste verde, que se complementa com a bonita manhã que hoje tive a sorte de viver.

Mesmo sentido que está tudo ao contrário e que não sou nada, aqui não consigo pensar nisso. Não penso nisso, porque, afinal, não penso em nada. É como se não houvesse nada na minha cabeça, apenas a bonita paisagem que tenho à minha frente e o cheiro do verde nas minhas narinas. E é extraordinariamente libertador sentir isso, nem que seja só por este breve momento.

Quando decido regressar até casa, já há algum tempo que andava por ali, novamente a mesma questão aparece: será que me sentiria desta forma aqui, neste local, se não estivesse com quem me faz bem? Não. Nunca. Os locais são especiais, porque deles temos pessoas que também são especiais.

0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

A anátema americana ou deverei dizer a anátema do racismo?

A anátema americana ou deverei dizer a anátema do racismo? “Calem-se e driblem”, diz a grande massa branca, privilegiada e protegida, incluindo a anátema cor de laranja que ajuda a propagar o ódio dando cobertura à polícia que mata e, aos brancos que matam enquanto assistem ao entretenimento oferecido pelos […]
%d bloggers like this: