Greves, bancos salvados e outros jogos de Carnaval

Publicado por em 8 Fevereiro 2019

Por debaixo do pano joga-se um jogo muito sujo que eu gostava de entender e de deixar questões.

A vida é um direito inalienável. O direito à saúde é um direito inalienável. O direito à greve também.

Os donos da Casa Grande ofereceram a alforria aos escravos da sanzala para que estes continuassem a produzir mais-valia e a gerar capital. Muitas obrigações e deveres foram estabelecidos para que a gente da sanzala continuasse a saber o seu lugar de dependência. Ofereceram-se alguns (poucos) direitos. Para que o nível de insatisfação fosse baixo e não produzisse o abandono do tabuleiro de jogo.

Passaram-se os anos. Tal como todos os direitos conseguidos por muita luta, antes de se constituir um direito institucionalizado na letra da lei, muitas greves foram realizadas pelas gentes da sanzala em busca de direitos. Em nome de maior dignidade de vida.

Porque a vida não é um favor emprestado pelos senhores da Casa Grande. A vida é um direito inalienável, repito. E a greve também.

As greves fazem-se para causar mossa. Mas se as greves fizerem de facto mossa – quando por exemplo coloca em causa o direito à saúde – então o direito à greve deixa de ser válido para que não cause mossa? Distorcido? Mas e então a democracia e o direito à greve? Ah…essa velhaca intrometida que só causa transtornos como os bicos-de-papagaio!

É para fazer mossa? pode fazer (de conta)! Faz mossa? Então não pode fazer!

Assim pensa neste momento o Governo – ao decretar a requisição civil – causando fricção entre os abandonados do costume: a gente da sanzala. A gente da sanzala agora luta contra a gente da sanzala. “Faz lá a tua greve desde que me operes ao cancro senão vou discordar do teu direito (que é também o meu)” e vou já concordar com o governo.

Pergunta para queijo, de uma cidadã que só tem questões: porque não houve um levantamento generalizado da gente da sanzala, quando todos os direitos lhes foram roubados pela troika de senhores da Casa Grande pelas mãos do governo que tudo tirou? Estavam sob o efeito de drunfos e outros relaxantes? Enfermeiros e professores há muito que foram abandonados pelos senhores da Casa Grande. E são vitais para um Estado dinâmico e vivo. A revolta é tardia e tem sabor a “jogo” daí causar transtornos intestinais a tantos na sanzala. E fazer entrar no jogo da divisão “uns contra os outros” que tanto bem faz aos senhores da Casa Grande.

Como dizia Eduardo Galeano “se a natureza fosse um banco já tinha sido salva”. Dizemos todos nós a nosso favor, se as gentes da sanzala tivessem realmente direitos, já tinham sido salvas. Se o alvo da preferência da salvação, em lugar dos bancos que alimentam os senhores da Casa Grande fossem as gentes da sanzala. Somos infelizmente meros peões de brega. Com uns rabejadores que apenas ganham alguma visibilidade temporária.

Se um governo recebe as suas camisolas das mãos dos seus patrocinadores – que são os senhores da Casa Grande – não restam dúvidas sobre quem recebe salvação.

Já é um lugar comum, quase sabedoria popular, que o jogo tem regras claras: quanto piores forem os serviços públicos e quanto mais destruídos estiverem, tanto melhor.

Quando em ruína, entrega-se a gestão aos privados que retiraram as mais-valias e o capital que tanto precisam (e anseiam). Quando correr mal, a gente da sanzala (o Estado) pagará os prejuízos.

Se o Governo quiser, em vez de salvar outro banco – o Novo e a Caixa – salve os abandonados enfermeiros, professores, auxiliares, técnicos e, outra gente da sanzala, que fazem funcionar um Estado digno desse nome.

Os tempos são de Carnaval duro. No desfile todos os reis da Casa Grande vão nus.

As greves – como direito inalienável – se não forem usadas para servir interesses obscuros de um jogo sujo, servem para fazer mossa. Se fizerem de facto mossa, use-se do direito democrático à greve para que outros direitos e melhores condições nasçam para as gentes da sanzala.

No SNS, na Educação, na Justiça.

O meu problema – como membro da sanzala – é não saber se vou morrer por falta de operação ao meu cancro, por uma causa verdadeiramente justa, ou envolvida numa teia tentacular de um polvo gigante, movido a interesses com tinta, firmado pelos senhores da Casa Grande.

Posso falar mal deles mas recuso-me a entrar em guerra contra os meus da sanzala.

Vertical como o pau que me enche as costas prefiro com ele matar os senhores da Casa Grande.

Anabela Ferreira

Este artigo é um original Notícias Online

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