Grazie, Gigi Buffon

Helena Durães
Tempo de Leitura6 Minutos, 47 Segundos

“There is a burning inside you that will lead you to make mistakes. Of course, you think that you are showing your teammates that you’re strong and free, but in reality, this is a mask that you wear.” 
Às vezes penso que emocionar-me é uma merda.
É uma merda porque em algumas dessas ocasiões também me faz sentir uma merda. Seja por aquilo que leio, seja por aquilo com que me identifico quando estou a ler, seja porque desperta no meu inconsciente algo que me faz experienciar um sentimento forte.
Quando vi hoje de manhã uma notícia que dizia que Buffon confessa que esteve deprimido apressei-me a ler o texto escrito pelo guarda-redes italiano em primeira mão, publicada no The Player’s Tribune.
Chorei.
Não pelo facto de estar a ler um testemunho tão pessoal, que mostrava que um dos desportistas que mais admiro no mundo teve depressão.
Chorei, essencialmente, por ter a constatação de que todos nós sofremos. Independentemente de pensarmos que ninguém o vê… Porque o nosso sofrimento está escondido ou o conseguimo-lo disfarçar, como ele diz e muito bem, com uma máscara de força e de irreverência.
E, inevitavelmente, em algum momento das nossas vidas, ele revela-se na sua máxima força. E, aí, nesse ponto não dá mais para fugir. Vamos ao fundo. Não há maneira de não cair. Só depois de cairmos é que a coragem se revela. 
A coragem revela-se no nosso próprio fracasso. É assim. Não há volta a dar.
E, depois, é nas pequenas coisas que nos podemos reencontrar com nós próprios. Com aquilo que somos, com aquilo que já fomos, com aquilo que éramos quando nada mais nos importava do que brincar. É, claro, engraçado perceber como algo tão simples nos pode despertar isso.
No caso de Buffon foi um quadro. Um jogador da bola que reflecte sobre o que é e encontra numa pintura aquilo que precisa para regressar à sua essência. Não deixa de ser único. É um gesto único e é puro. Talvez seja por isso que seja tão belo.
“At the depths of your depression, something strange and beautiful will happen. One morning, you will decide to break your routine and go to a different restaurant in Torino for breakfast. So you’ll take a new route through the city, and you’ll walk past an art museum.

The poster outside will say CHAGALL. 

You have heard this name before. But you don’t know about art. 

You have things to do.

You must be on your way.

You are Buffon.

But who is Buffon?

Who are you, really?

Do you know?

This is the most important part of this letter. You have to walk into that museum, on that specific day. It will be the most important decision of your life.

If you do not walk into that museum, and you carry on with your life as a footballer, as Superman, then you will continue to lock all of your feelings away in the cellar, and your soul will deteriorate. 

But if you go inside, you will see hundreds of paintings by Chagall. Most of them will do nothing to stir you. (…) But then you will see one specific painting that will hit you like a lightning bolt. 

It is called The Walk.

It’s an almost childlike image. A man and a woman are in a park, having a picnic, but everything is magical. The woman is flying away into the sky, like an angel, and the man is standing on the ground, holding her hand, smiling.

It is like the dream of a child. 

This image will transmit something from another world. It will give you the feeling of a child. The feeling of happiness in simplicity.” 
É pela pureza do seu gesto que me emociono.
Corro para saber qual é a pintura de que ele fala.
E percebo bem qual é. É interessante dar-me conta de como há certas coisas que tocam as pessoas por esta ou por aquela razão, enquanto que para outros essas mesmas coisas passam ao lado.
Talvez seja por isso que certas canções me emocionam tanto. Confesso que algumas delas nem consigo ouvi-las por completo, pelo confronto exigente que me provocam.
“As we get older, we can easily forget these feelings.

You must go back to the museum the very next day. It is essential.

The woman at the ticket booth will look at you in a funny way. She’ll say, “Weren’t you just here yesterday?”

It doesn’t matter. Go back inside.

This art will be the best cure for you. When you open up your mind, the inner heaviness that you feel will be lifted, like the woman being lifted into the air in Chagall’s painting.” 
Ao ler esta carta de Buffon, percebo aqui a sua imensa coragem: ele parou para ver o quadro. Ele voltou no dia seguinte para voltar a ver o quadro. É, de facto, um homem com coragem. Para mim este simples gesto de voltar a este confronto enche-me de alegria por ele. Pelo próprio Buffon. Eu não o consigo fazer. Eu ainda não o consigo fazer. Espero, um dia, ter a coragem e força suficiente para ouvir aquela canção que me emociona de traz para a frente e de frente para traz. Vezes sem conta.
“This is what will get you out of your depression. Not remembering that you are special, but remembering that you are the same as everyone else. You cannot comprehend this now, at 17 years old, but I promise you that real courage is showing weakness and not being ashamed.

You deserve the gift of life, Gigi. Just as everyone does. Remember this.”
É frequente ouvirmos falar muito de depressão, de saúde mental, de ser algo que anda meio escondido, mas que todos sabemos que existe.
Por vergonha, por não querer dar parte de fraco ou por preconceito até, escondemos todos os nossos pensamentos, as nossas tristezas, colocando as máscaras do dia-a-dia. Andando sempre numa espécie de corda bamba, como se a qualquer momento um ínfimo movimento da nossa parte nos pudesse fazer cair para o abismo. E temos medo. Temos tanto medo de cair para o abismo, porque temos medo de não regressar. De não mais regressar à vida. Resta-nos perceber que se não cairmos no abismo, vamos continuar na pressão constante de nos mantermos numa corda bamba e isso acaba por nos matar de forma tortuosa. Temos de cair no abismo para que aí consigamos encontrar um caminho de volta à verdadeira superfície, em chão pleno e seguro, sem fundos escuros.
“Do you remember the first winter you went to visit your uncle in Udine, up in the mountains? Or is this a memory that only an older man can recall?

You were four years old. It had snowed overnight. You had never seen snow before. You woke up and looked out the window, and you saw a dream. This whole country turned white.

You ran outside in your pajamas, and you didn’t even understand what snow was. But there was no hesitation.

You looked at the white snowbank, and what did you do? Did you think?

Did you wonder? Did you run inside for your coat?

No, you jumped right in. Fearless.

Your grandmother was screaming, “Gianluigi!!!!!!!!!! No! No! No!”

You were soaking wet, grinning.

You ended up having a fever for a whole week.

But you didn’t give a damn.

No hesitation. Right into the snow.

This is who you are.

You are Buffon.

You will show the world that you exist.”
Grazie, Gigi. Por me fazeres chorar mas, ao mesmo tempo, por hoje me fazeres sentir tão viva, lendo aquilo que te mostra ser tão real. Tão humano. Como eu. Como cada um de nós.
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