Fura Vidas – Preciso de um Joca na Minha Vida

Helena Durães
Tempo de Leitura5 Minutos, 27 Segundos
Em tempos onde se passam mais horas em casa dei por mim à procura de uma série que para sempre ficou no meu imaginário: Fura-Vidas, transmitida pela SIC, com o começo em 1999 e término em 2001. É baseada na série Only Fools and Horses, escrita pot John Sullivan.
Fura Vidas tem tudo para dar certo: humor, família, cumplicidades, esquemas e trapalhices.

Não havia forma de errar, ainda para mais, se têm no elenco Miguel Guilherme. O Quim Fintas será sempre a cara da série, disso não haja qualquer dúvida. Ele é a mente da empresa da Import e Export Fintas&Fintas. Normalmente, é a ele a quem aparecem as oportunidades de negócio, é ele que arranja os esquemas, sempre no desenrasque. E haverá alguma coisa mais portuguesa que o desenrasque? Não creio. Por isso, é que facilmente nos identificamos com a personagem, porque, de certeza, que conhecemos alguém parecido ou até mesmo nós, em alguma situação pensámos ou pensamos como ele.

Miguel Guilherme é realmente um homem de um talento incrível e cumpre o papel na perfeição. Com a sua postura corporal, na sua forma de falar, nos gestos e nos pequenos tiques que adopta. É, de facto, excepcional. E depois temos sempre as expressões que para sempre ficaram: “está pra lá de raffiné, como dizem os franceses”, “quem não arrisca não petisca”, “para o ano estamos milionários”… Sem esquecer tudo aquilo que ele tentava dizer em francês e que ninguém percebia, só mesmo ele.
O primeiro episódio da série é claro: o irmão mais novo de Quim, Joca, está farto de ser “vendedor” e quer ter uma outra vida. O irmão mais velho, que sempre cuidou dele, depois do pai desaparecer e da mãe morrer, não quer que o irmão parta para outras aventuras, tentando de tudo para que ele perceba que a sociedade que têm, Fintas & Fintas, é a melhor solução. Mas o Joca é… Como hei-de dizer, o Joca é aquela personagem meio ingénua, que por vezes chega a ser o vulgo tótó, mas de quem toda a gente gosta.
Nas trapalhadas que se mete, ficamos sempre a torcer para que uma dêem certo… Mas, invariavelmente isso é difícil. Aquilo de que mais gosto no Joca é que quando tenta ser espertalhão como o irmão, nunca tem sorte. Ele é o detentor do famoso curso de secretariado comercial, mas que tem já cadastro: foi apanhado a fumar um charro, na cama com uma chinesa. Um facto que o acompanha sempre na série.

Não faz frente aos maiores, talvez por ter sido sempre tão protegido pelo irmão, como está sempre a dizer ao longo da série. É um pinga amor, apaixona-se facilmente e é um coração grande. A palavra “imoral” está muito no seu vocabulário, mas o irmão ajuda-o a superar isso quando acena com umas notas.

O Joca representa tudo aquilo que cada um de nós tem ou já teve: aquela ingenuidade, aquela vontade de tomar as rédeas de alguma coisa para conseguir algo. Em suma, preciso de um Joca na minha vida. No fundo, ele só se quer safar na vida. E não é o que queremos todos? O Joca faz-nos acreditar que nem tudo está viciado ou moldado.
Esta é a primeira aparição de Ivo Canelas na SIC. É um miúdo, não faço ideia a sua idade na altura, mas já aqui é claro que tem tudo para dar certo. E deu, como todos sabem. Também na sua postura corporal, nos seus gestos, que depois se tornam tão característicos… E a sua atrapalhação. É demasiado bom.
Logicamente, que falar de Fura Vidas e não mencionar o avô seria uma parvoíce. Personagem sempre sábia… ou não. Canto e Castro interpreta um homem, que esteve na marinha e conheceu o mundo e que tem sempre uma história para contar. O problema é que na maior parte das vezes a história ou nada tem que ver com o dilema em questão ou acaba por sair sempre furada. Não há como não gostar do Senhor Fintas, sempre com o seu gorro na cabeça ou quando vai ao bar da Dora, com a caneca de cerveja na mão.
Há sempre uma coisa curiosa, que me faz gostar mais das primeiras temporadas: as três televisões na sala, onde o avô as tem sempre a todas no mesmo canal.
Aí está, outro espaço mítico: o bar da Dora. Tem aquele aspecto típico de bar de bairro, o local onde a

malta se encontra, tranquilamente, para beber apenas uma cerveja ou para simplesmente esquecer tudo de uma vez. Transporta-nos para um imaginário de bar às antigas, de ponto de encontro diário, onde tudo pode acontecer. E atenção, não me esqueço daquelas bebidas esquisitas pedidas pelo Quim. Quem se se pode esquecer do “singapura by night”?

A evolução das personagens é evidente ao longo das três temporadas. Como por vezes acontece com outras séries, as primeiras temporadas são sempre as melhores. Para mim, esta não foge a essa regra. Talvez porque nestas duas primeiras existe um purismo e há uma ténue mudança da primeira para a segunda. Na terceira há um crescimento notório ao nível psicológico e social das personagens.  O que também é bom, mas não me enche o olho. É claro que numa história as personagens têm de crescer.
Não faço ideia porque é que não houve continuidade da história. Também é certo que as história têm sempre um fim, mas “Fura-Vidas” é intemporal. Apesar de ter grandes referências à época em que é gravada, é certo: o escudo, o euro, o aparecimento dos computadores, dos telemóveis, os vídeos, os isqueiros em forma de pistolas… enfim, tantos objetos que qualquer um de nós que cresceu nesta época teve em casa.
No fim de contas, e independentemente de tudo, a cumplicidade entre irmãos e o amor fraternal é o que fica, com a concretização da célebre frase, afinal é o que mais importa. 
E é mesmo.
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