Espero por Ti, Meu Amor

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 54 Segundos
Espero por ti, meu amor
Enquanto te admiro, estando tu sentado no parapeito da janela a escrever mais uma das tuas canções. Estando tu a combinar as palavras para que consigas expressar aquilo que julgas que é o mais importante neste momento. Aquilo que tu sentes.

Sim. Espero por ti, meu amor
Enquanto tentas colocar por palavras, umas a seguir as outras, sem rimar, tudo aquilo que sentes. Esse

turbilhão de emoções que trazes no teu semblante. Esse peso que parece carregar… O peso do mundo que pareces carregar nos teus ombros. No entanto, nem esse peso é suficiente para te impedir de bateres com os teus dedos na madeira, enquanto a lua cheia te dá à luz necessária para que tu possas ver o que escreves.

Espero por ti, meu amor
Enquanto fechas os olhos e trauteias mais um poema que para ti será o teu último tesouro. É sempre assim. O teu último poema é sempre o teu último tesouro. E é o mais importante. Não que todos os outros não o sejam. Cada um deles é como um filho, mas o último… o último é sempre aquele pelo qual guardas mais carinho.
Espero por ti, meu amor
Enquanto abres os olhos e me encontras, sabendo que eu estarei sempre ali, à tua espera. Porque te amo. Porque amar-te-ei sempre, mesmo que me faças esperar. Não importa. Estarei sempre aqui, a admirar-se enquanto chegas ao final da tua escrita. Sentir-me-ei sempre abençoada por ter a oportunidade de apenas te ver. Sorris. Deus… como é possível não esperar por ti quando me mostras esse belo sorriso?
Espero por ti, meu amor
Enquanto te prendo o olhar com o meu, por breves segundos, e me encosto à ombreira da porta como que a dizer-te que tens todo o tempo do mundo. E é verdade. Tens todo o tempo do mundo para continuares a escrever. Para continuares a ser livre nas tuas palavras. Para continuares a crescer em ti próprio. Para continuares a desprender-te desses destroços que carregas dentro de ti, no teu coração. Destroços que guardas há anos e com os quais muitas vezes já não sabes lidar sem ser com a tua escrita. Talvez seja esse peso que guardas só para ti que te vai fazer chegar àquilo que mais anseias: o poema perfeito. 
Espero por ti, meu amor
Enquanto continuas à procura desse tal poema perfeito. Poderá não ser o mais bonito ou aquele que reúne as palavras mais belas da língua… Mas, será, com toda a certeza, aquele onde conseguires expressar por palavras todo esse amor e toda essa dor que sentes. Como eu sei que o queres fazer… Como se ao escreveres todas essas palavras, como se ao as combinares da forma que te ocorre, elas conseguissem abarcar tudo aquilo que és. O bom e o mau. O bom e o mau que eu amo de igual forma.
Espero por ti, meu amor
Enquanto procuras essa forma de te curares. Dar-te-ei sempre tudo aquilo que precisares. Estarei aqui. Afinal a minha presença contínua foi a melhor forma que encontrei para te demonstrar que te amo incondicionalmente. Sabê-lo-ás? Espero que sim. Espero que saibas como eu te amo na esperança de que um dia também eu te possa ajudar nessa cura. Só assim fará sentido toda esta espera. A espera de te ver e de te sentir sem esse vazio que por vezes te leva para um caminho escuro, sem luz, onde a queda é constante. Mesmo que não te cures, eu sei que estarei sempre no fundo do poço para amparar essa tua queda. Tal como sempre fiz. Nunca estarás sozinho. Nunca estarás sozinho no fundo do abismo, nem enquanto tentas terminar esta nova canção. Tal como agora.
Espero por ti, meu amor
Enquanto tentas escrever o fim deste teu poema, sentado no parapeito da janela, com a brisa da noite a fazer-te sentir que estás no paraíso. No paraíso, com a tua caneta, o teu caderno, no silêncio da terra, na luz da lua cheia que te ilumina a face. Paras de trautear. A força com que colocas o ponto final na folha dita que terminaste. Como se a convicção com que terminas o teu poema te dissesse que aquele seria o último. Mas não. Ambos sabemos que nunca haverá o último. Escreverás sempre, não será a escrita aquilo que te mantém à tona? Às vezes gosto de pensar que também eu te mantenho à tona.
Espero por ti, meu amor
Enquanto fechas o caderno, saltas do parapeito da janela e o deixas na mesa, no quarto, junto à cama. Finalmente, encontras-me com os teus olhos. Estás sério. Estás sério tal como sempre acontece quando terminas uma canção, com a certeza de que poderias ter feito melhor, nessa exigência contínua que colocas a ti próprio. Chegas perto de mim, colocas uma das tuas mãos no meu braço. A outra encontra a minha e entrelaças os teus dedos nos meus.
Ai, meu amor. Como esperei por ti, para que me desses a mão desta forma serena e tranquila. Aperto os teus dedos de forma leve, como sempre faço e endireito-me. Guio-te para fora do quarto, para nos sentarmos no alpendre. A noite está quente e eu sei como apenas queres sentir o silêncio à tua volta. Senta-mo-nos os dois cá fora. E, tal como sempre esperei, encosto a minha cabeça no teu ombro. Ao de leve deixas um beijo nos meus cabelos e eu sei: aqui eu sei que a minha espera valerá sempre a pena.


Figura 1: “Man Writing” de Jacob Isaaksz van Ruisdael
Figura 2: “Dreams” – Michael & Inessa Gramash

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