Dá-me um Beijo

Helena Durães
Tempo de Leitura3 Minutos, 17 Segundos
Dá-me um beijo. 
Dá-me um beijo quente, que me envolva naquilo que tu és, nas tuas mãos que me percorrem corpo, como se soubessem exactamente por onde têm de ir, onde têm de passar, onde têm de ficar.
Dá-me um beijo como se quisesses apagar a minha memória. Como se quisesses apagar aquilo que fui, aquilo que sou, aquilo que serei.
Dá-me um beijo que me faça sair de mim, como se não fosse eu… Que me fizesse esquecer onde estive, onde estou e onde estarei.
Dá-me um beijo que me faça sentir viva. Tal e qual como aquele que trocámos entre as nossas sombras, como se fôssemos um só. Como se nada mais houvesse entre nós naquele milionésimo de segundo.
Dá-me um beijo que me devolva aquilo que é viver. Aquilo que é viver em permanente sobressalto onde a nossa pele é sempre superior à nossa cabeça e ao nosso coração. Que me devolva aquilo que é viver intensa e plenamente sem barreiras, sem valores e sem princípios.
Dá-me um beijo que me faça sentir livre, onde não haja amarras nem amor. Onde não há sentimento, nem valores. Onde apenas sejamos dois corpos que se querem unir na flor daquilo que são os nossos impulsos.
Sim.
É isso.
Dá-me um beijo que seja o reflexo do nosso impulso, sem razão, consciência ou sensatez. Isso não existe. Dá-me um beijo onde nada disso exista, onde apenas nos deixamos guiar por esta ligação que temos, por esta corda invisível que nos tem agarrados. Que tem a nossa pele impressa em cada um dos nossos lábios.
Dá-me um beijo que seja um abraço, como se me nada me pudesse fazer mal. Dá-me um beijo que seja a mesma intensidade com que me olhas.
Dá-me um beijo onde apenas sinta o teu cheiro. Único. O teu cheiro único que vou ser capaz de descobrir onde quer que estejas. Porque esse cheiro está mim, está em cada ponto da minha pele, em cada parte do meu ser. O teu cheiro que está em mim e que me aquece por dentro como uma fornalha.
Dá-me um beijo que me livre deste entorpecimento. Que me faça andar, que me faça bater o coração, que me faça parar de questionar. De te questionar. De me questionar. De nos questionar. Que me faça esquecer.
Dá-me um beijo que me faça sentir. Que te faça sentir. Que nos faça sentir que estamos num espaço só nosso, num universo só nosso, numa realidade que criámos com aquilo que vivemos. Dá-me um beijo te faça sentir como eu te sinto. Porque eu sinto-te perto, sempre perto, em toda a parte, em cada espaço que procuro para fugir disto que me tem em ti.
Dá-me um beijo que me faça ir. Que me faça ir por aí em busca da vida que perdi. Em busca dos sonhos que já não tenho. Em busca daquilo que nunca tive. Em busca daquilo que não terei. De uma felicidade que perdi.
Dá-me um beijo que me faça acreditar que a mortalidade não é para sempre. Que é possível ser eterno. Que é possível ser diferente, longe das frustrações, dos amores que perdi por entre os dedos da minha mão. Dá-me um beijo que me faça acreditar que toda a minha dor vai encontrar um lugar onde finalmente possa descansar e eu ser apenas isto que vivemos.
Dá-me um beijo que me faça adormecer e sonhar que tudo isto aconteceu, em que houve um momento onde tu e eu fomos parte um do outro.

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