Angustiante Reajuste à Realidade

Helena Durães
Tempo de Leitura4 Minutos, 29 Segundos
Os braços que me circundam provocam em mim um sentimento de segurança que nunca tive. Que sensação é esta de estar numa outra vida onde não há passado nem futuro? Só o presente. Que bela sensação libertadora, como se fosse eu. Ali. Verdadeiramente com aquele homem que me proporciona uma sensação de plenitude, à beira de um estonteante mar azul banhado pelo sol.
De repente, os mesmo braços que me seguram, deitam-me para o chão. A força com que caio faz-me perder os sentidos. Já não sei onde estou. O mar já não está lá, muito menos o sol. É tudo escuro, o chão é feito de uma pedra que nunca antes tinha visto. Uma pedra pontiaguda, que me fere as costas. 
O que se passou de um momento para o outro? As mesmas mãos que há pouco me seguravam, arrancam de mim tudo aquilo que eu tenho. Grito desesperadamente. Porque é que essas mesmas mãos esfolam a minha pele? Porque me arrancam impiedosamente o meu coração? A dor que sinto é

incontrolável, mas mesmo assim, não morro.

E tudo se torna ainda mais insuportável.
00:01h
Abro os olhos.
Acordo, agitada e com um aperto no coração.
Foi um sonho.
Foi um bonito sonho que terminou de forma abrupta.
O sonho transformou-se em pesadelo.
Fecho os olhos e sinto uma angustia terrível.
Abro-os novamente.
Sabem aqueles momentos em que tentamos reajustar-nos à realidade?
Assim estou eu, a tentar reajustar-me à realidade, nestes segundos que agora me parecem eternos. Momentos que me parecem eternos para meter na cabeça que o sonho não era real, que nunca tive ou vivi aquela situação.
Foi tudo imaginário.
Racionalmente, também o pesadelo é isso: imaginário. Mas a impressão que deixa é tão forte que a mim me parece real. E não o consigo esquecer, agora que me tento enquadrar na realidade.
Eu só quero esquecer.
Como eu só quero esquecer… O sonho e o pesadelo. Até porque o bom do sonho não apaga esta má sensação do pesadelo. O melhor é esquecer tudo. O melhor é esquecer tudo e voltar à minha realidade. Retornar ao ponto em que adormeci consciente de onde estava, de quem eu sou e de onde venho. Consciente da minha rotina e sabedora das minhas responsabilidades. Detentora de um carácter imperturbável. Conhecedora do que tinha de fazer, do que tinha de esperar dos próximos tempos. De bases sólidas, prudente, cautelosa, sem ambições.
Nestes breves momentos em que me tento acalmar, ainda não me esqueci disto: do que sonhei. Ai, Deus!, como eu quero esquecer tudo e esta angústia… Sinto uma angústia que me penetra por todo o meu ser. Já era tempo de passar por cima disto e voltar a adormecer, creio… Ou não? Continuo a sentir este aperto no coração, que me esmaga. 
Sinto um medo irracional de mãos dadas com esta maldita angústia. Um medo angustiante de não conseguir esquecer isto que sonhei. Um medo angustiante de não conseguir voltar a fechar os olhos sem aquelas imagens do meu pesadelo tomarem conta da minha cabeça e dessa forma me manterem acordada.
Deus. Eu não quero estar acordada. Eu só quero voltar a dormir e amanhã, quando acordar, não me recordar do que sonhei… Não me lembrar desta dor no meu coração, que me sufoca, que me bloqueia a voz. Quero esquecer este momento em que sinto a minha garganta entalada.
A minha vista já se habituou à noite. Nem por um momento acendi a luz. Se calhar devia-o fazer. Acender a luz, levantar-me, andar um pouco, beber um copo de água, ir à casa de banho, ajeitar os lençóis e… e depois voltar.
Mas, por alguma razão, uma força superior a mim não me deixa levantar. Ela mantém-me presa às imagens que o meu subconsciente criou e depositou em mim. Terá sido para sempre?
Sento-me na cama. Isto deverá ajudar.
Uma lágrima cai no meu rosto. Choro pela primeira vez, desde que regressei do sonho transformado em pesadelo.
Olho em volta, tudo está onde tem de estar, mas, porque raio, não me sinto bem? Porque raio não me consigo sentir estável, exactamente da mesma maneira que me sentia antes de adormecer? Porque raio sinto esta angústia dentro de mim, como se bloqueasse o meu funcionamento normal?
Uma outra lágrima cai.
Eu só quero esquecer, por favor, levem-me de volta a esse tempo, a essa hora antes de me deitar. Por favor…
Muitas mais lágrimas caem. Talvez essa seja a solução para que possa esquecer… para que me possa esquecer daquela boa sensação de levitar num abraço antes de esses mesmos braços me rejeitarem e me arrancarem aquilo que eu sou. Eu já não sei bem o que fazer, talvez isso resulte: chorar.
Lá fora, um carro passa.
Veloz.
Desenfreadamente.
Assusto-me e ligo o candeeiro por impulso. Olho para o relógio.
00:02h
Foi um sonho que acabou em pesadelo.
Fecho os olhos e sinto uma angustia terrível.
Abro-os novamente.
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