Acordei-te III – T-Shirt Preta

Helena Durães
Tempo de Leitura5 Minutos, 33 Segundos
– De que te lembras de quando nos conhecemos?
Esboço um leve sorriso. Sempre que tenho a minha face encostada ao seu peito, sinto que estou na minha casa.
– Que pergunta é essa? – A sonolência que toma conta do meu corpo, faz com que a minha voz saia num tom muito mais baixo.
– Sim… – o riso que ele solta percorre todo o meu cérebro – É uma pergunta como outra qualquer – ele completa antes de levar o cigarro à boca.
Ajeito a minha cabeça, levando o meu ouvido ao seu peito. Não há nada que me dê mais harmonia do que ouvir a cadência do seu coração.
– Hum… Da tua t-shirt preta.
– Porquê?
Vejo como ele volta a colocar o cigarro no cinzeiro.
– Não sei… Estavas tão…Tão simples. Não sei. Não sei porque me lembro disto, sei que é um pormenor, mas ambos sabemos que a memória é selectiva.
– Não tenho só aquela t-shirt preta… Tenho mais algumas. Afinal, não te lembras de nada que eu tenha de único. 
Mexo-me um pouco, de modo a que possa levantar a minha cabeça e olhar para a sua face. Ele está com aquele leve sorriso que apenas me demonstra que ele se está a divertir com toda aquela conversa.
– É curioso… – ele diz antes de pegar novamente no cigarro. 
Maneio a cabeça e volto para o meu refúgio.
-A t-shirt preta contrastava com o teu olhar límpido. Esses teus olhos castanhos que às vezes me parecem verdes… faziam sobressair a t-shirt.
– Hum… – o fumo do tabaco está por todo o quarto, tal como sempre acontece quando conversamos. Detesto cigarros, mas, invariavelmente, ele faz com que esse meu ódio de estimação desapareça. Eu sei que aquilo faz parte dele, por alguma razão que desconheço, fá-lo pensar – Dizes sempre isso… dizes sempre isso sobre os meus olhos.
– É verdade. Nem os teus olhos são apenas de uma cor.
– Nenhum de nós é apenas uma cor. Somos várias…
– Sim… Por vezes… Por vezes, somos demasiadas cores…
– Queria ser monocromática?
Encolho os ombros e fecho os olhos.
– Houve muitas ocasiões em que quis ser monocromática. Sente-se menos…
– Essa tua resistência de sentir… Porque é que te faz tanto mal sentir?
– Enganas-te no tempo do verbo…
Ele leva a ponta do cigarro ao cinzeiro e apaga-a.
– Porque é que te fez tanto mal sentir?
Ele pega no lençol e puxa-o, cobrindo as minhas costas.
– Sentir significava sofrer. Significava trazer uma dor sempre comigo… Uma dor que se traduzia numa imensa tristeza. É muito cansativo viver-se assim…

Os seus lábios na minha testa são como a certeza de que ele me entende, neste acordo tácito entre os dois que conseguimos construir ao longo do tempo. Desde que ficámos abraçados no meio daquela estrada. Nunca ninguém me tinha procurado ou sequer corrido atrás de mim. Ele foi o único. Também nisso ele foi o único.

– Ter apenas uma cor é sinal de simplicidade, mas também pode ser sinal de complexidade… O que foi preciso acontecer para sentirmo-nos monocromáticos? – Completo.
Ele suspira e, agora, sinto a sua face na minha testa.
– É uma boa maneira de ver as coisas… Como quando apenas se vê um quadro de uma cor… Na maior parte das vezes não desperta qualquer interesse nas pessoas.
– Verdade. A maior parte passa por esse quadro e não perde um segundo sequer a vê-lo.
– Mas tu paraste para me ver.
Agora é a minha vez de sorrir. 
Deixo o seu peito e sento-me ao seu lado na cama. 
– Sim. Eu gosto de imaginar o que está por detrás de toda aquela cor – levo uma das minhas mãos à sua
Sem Título, Mark Rothko

orelha, descendo até à pequena argola que teima em trazer consigo – O que te levaria a usar apenas uma t-shirt preta, denotando a tua não preocupação em estar arranjado… Achei graça a isso – retiro a minha mão do seu brinco e coloco-a no meu regaço – Numa exposição gosto de ver o monocromático e imaginar o que terá levado o pintor a apenas se dedicar a uma cor. Assim, despojado de outras matérias e de outras figuras… ou como terá sido pintar uma tela de apenas e só uma cor. Porquê? Estaria cansado das várias cores, não se cansaria ele de apenas trabalhar com uma cor naquela tela?
– Enganaste-te na tua resposta ao início… Lembras-te da minha t-shirt preta não por ser simples. Mas por te inspirar complexidade.
Sorrio e encosto-me à cabeceira da cama.
– Foi precisamente por aparentares tanta simplicidade que eu sabia que havia aí complexidade.
– A simplicidade também é complexa, porque ela própria esconde razões.
– Sim… No fundo, tanto a simplicidade como a complexidade têm razões de ser. E, invariavelmente, as causas de algo ser simples ou complexo não são lineares…
– Logo, despertam-te curiosidade.
Volto a sorrir.
– Mas o que se passa hoje?
Ele encosta-se, também, à cabeceira da cama e fica a olhar-me, por um segundo, apenas vejo os seus olhos castanhos que, novamente, me parecem verdes.
– Estamos a filosofar – ele diz, baixinho, chegando a sua face ainda mais perto da minha.
– Hum… E tu? Do que te lembras de quando nos conhecemos? – roubo-lhe um beijo.
– Daquilo que transmitias com os teus olhos. Não sei se será a minha memória seletiva a provocar esta lembrança. Eu não sabia bem o que era, mas sabia que aquilo que trazias nos teus olhos contrastava com a alegria que o teu bonito sorriso transparecia.
Fito-o.
– Sabias que era tristeza?
– Na altura não sabia que era tristeza. Só o descobri depois. Melhor dizendo, descubro-o todos os dias, pois era diferente deste brilho que agora trazes. Quando nos conhecemos não o soube descortinar, claro. Mas, foi esse algo nos teus olhos, a que eu não sabia dar o nome, de que eu não me esqueço.
– Esse algo que viste nos meus olhos despertou-te curiosidade.
Ele apenas acena e deixa um beijo no meu nariz.
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