Acordei-te? II – Não Esgotámos o Nosso Temo

Helena Durães
Tempo de Leitura6 Minutos, 15 Segundos
Assim que acabo de lhe contar o que tinha guardado há tanto tempo vejo como o seu semblante muda. Tal como já tinha acontecido antes, num outro tempo, num outro espaço, com um outro alguém.
Sentada de frente para ele, sinto que não me consigo mexer. Talvez por querer prolongar por mais um segundo aquela sua imagem. Aqueles seus olhos de que tanto gosto. As suas rugas que pintam a sua pele ao de leve, os seus lábios dos quais ouvi tantas vezes algumas das mais belas histórias, as suas mãos que pegaram em tantos livros, alguns dos mais bonitos que já tinha lido.
O que é que ela acabou de me dizer?  É como se tivesse deixado de atribuir significado às palavras que da sua boca sairam. Não pode ser verdade. Qual a necessidade de partilhar uma coisa destas comigo? Mas… Ela espera que eu diga alguma coisa. Concerteza, que ela espera que eu diga alguma coisa. Mas o que poderei eu dizer?
O seu ar é de dor. Sim, é de dor. Isso eu consigo identificar facilmente. O seu cenho franzido, as lágrimas que estão nas faces. Terá sido ela uma mulher em permanente sofrimento, mesmo depois de todos os sorrisos que trocámos? Deus… O seu belo sorriso. Onde está agora o seu belo sorriso?
– Será melhor ir-me embora – levanto-me. É melhor. Será sempre melhor do que continuar aqui a olhar para ele, sabendo que não há mais nada que possamos fazer ou dizer para que… para que fique bem. Para que fiquemos bem.
Passo por ele, que continua inerte e sem pronunciar qualquer palavra.
– Desculpa tudo isto, mas… Bem, acho que to deveria ter dito. Sei que… Eu só te queria dizer que foi tudo especial. Quase reparador, diria até.
Tal como o meu lado mais racional sempre me tinha dito, quando ele soubesse o que… o que me atormentava tudo terminaria. Sinto como se não conseguisse respirar. Afinal de contas, sempre soubemos que tínhamos um prazo. Esta foi a maneira de descobrir que esse tempo se tinha esgotado.
– Adeus.
O meu tom é baixo, sem grande emoção. Sei bem que assim que sair, as lágrimas vão cair em catadupa. Mas, pelo menos agora, não posso dar esse sinal.
Coloco a minha mão na maçaneta da porta da rua. O leve ranger ao mínimo movimento, torna tudo ainda mais real. É o fim.
Ela está prestes a chorar. O que raio… Porque é que ela tinha de me contar isto? É certo que estávamos bem. Estávamos naquela nossa bolha onde ninguém conseguira interferir. Naquela bolha que tinha nascido do interesse espontâneo misturado com aquilo que líamos um ao outro, ao som dos discos que tocavam na sala.
E isso era genuíno. Isso era o que me dava aquele sentido de pureza, que pensava ser impossível de voltar a ter. De o voltar a ter em mim.
Não estaria ela agora a ser egoísta o suficiente, pensando que deveria dividir isto comigo?
A porta… Ela vai-se embora.
Ele continua sem nada dizer. E talvez seja esse silêncio que me leva a sair rapidamente. Como se ao sair daquela casa, fosse uma forma de deixar tudo para trás. Outra vez. Porém, eu sei que é melhor assim. Com a mesma rapidez com que sai da sua casa e fechei a porta atrás de mim, desço as escadas de madeira até à entrada do prédio. Quando mais rápido sair, mais rápido poderei respirar. E como eu quero respirar um pouco.
Já nem noto que as lágrimas me mancham as faces. Sempre foi assim. Quase que já nem noto, nem me importo que alguém me possa ver. No entanto, sei que aqui será preciso muito para que alguém me veja.  A esta hora da tarde, o prédio é sempre sossegado, assim como a sua rua. Chego à porta e saio. E sim, ninguém anda pela rua a esta hora… Nem sequer um carro.
Agora sei que posso desacelerar o passo. A minha respiração fica um pouco mais alterada. Coloco a minha mão sobre o peito e dou os primeiro passos, no meio da estrada de alcatrão.
Mas o que estou eu a fazer? Olho para trás. Sim. Ela saiu. O bater da porta já me tinha dado esse sinal, mas… Ela já não está ali. Ela já não está ali.
Levanto-me. Olho em redor, como se não soubesse onde estou. Eu sei que esta casa é minha, mas… Mas, agora a única coisa que eu sei é que ela já não está aqui.
Não. Não. Não.
Maneio a cabeça ao mesmo tempo que procuro os meus ténis gastos. Sim, que parvo! Eles estão sempre ao pé da porta da rua. Rapidamente, calço-me. Se nada fizer, não há mais livros, não há mais discos, não há mais nenhuma bolha.
Pego nas chaves e abro a porta rapidamente. Não tenho noção do tempo. Não tenho noção do espaço. Talvez ela ainda esteja a descer as escadas de madeira deste prédio antigo.
– L.! – Grito por ela. Acho que nunca gritei o seu nome… Pela primeira vez, faço-o e parece-me tão estranho, parece-me tudo tão fora da normalidade que conseguimos criar. Conheço estas escadas demasiado bem. Corro, corro para chegar rapidamente à porta que dá para a rua. Essa rua pela qual ela já andará.
Um pé à frente do outro. Devagar. Como se dessa forma tivesse a certeza de que não vou cair. De que vou conseguir sair dali, daquele sítio onde me senti eu. Onde me voltei a sentir completa.
– Ei!
Paro. A voz. Aquela voz. Aquela voz que me tinha acostumado a ouvir junto de mim, a ler-me as mais belas passagens de diferentes livros depois de fazermos amor. Não é esse mesmo tom baixo e pausado. Há algo… É mais elevado, mas… Há alguma pressa?
Giro. Quero ver a sua face. Quero ver que não estou enganada.
Quase ao fundo da rua, ela vira-se para mim. Ela ouviu-me. Continuo a andar na sua direção. Quero que ela perceba não só pelas minhas palavras, mas também pela minha ação, que eu não a vou deixar ir. 
Já mais perto consigo ver como ela está destruída. Como fui eu capaz de ficar inerte? Não será prova íntrinseca de que estamos ligados, quando dividimos aquilo que mais nos atormenta?
– Não esgotámos o nosso tempo – finalmente. Finalmente, consigo dizer o que quero.
Não teria sido necessário que ele proferisse estas palavras. Só a presença dele, ali, no meio da sua rua tinha já sido o sinal de que eu precisava.
Corro até si a afundo-me no seu abraço.
– Ainda não é hora de acordarmos – ele diz-me junto ao ouvido, naquela sua voz rouca e inconfundível através da qual já tinha ouvido alguns dos mais bonitos versos de todos os tempos. De novo, com o seu tom baixo e inigualável. Sim. Esta é a sua verdadeira voz.
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O índice UV encontra-se no nível 6, pelo que deverá tomar algumas precauções ao expor-se ao sol ! Actualmente estão 23º na Amadora. Aproveite para ouvir a Telefonia da Amadora! Esta informação foi verificada em June 20, 2020 at 11:41AM
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