A Razão Sem Razão

Helena Durães
Tempo de Leitura3 Minutos, 58 Segundos

Há quem diga que sou muito racional. Penso em demasia nas coisas.
Talvez seja verdade… Até porque sei bem como escondo o meu lado mais sensível, deixando-o mais para a escrita.
Uma das evidências em como este lado racional está sempre ativo é a necessidade que tenho em encontrar uma resposta para tudo o que me acontece. 
Encontrar uma razão para tudo.
Porque é que as coisas acontecem de uma maneira e não de outra? Porque razão é que isto ou aquilo tinha de se passar? O que é que justifica que isto ou aquilo me tenha acontecido?
Por vezes, são questões que andam à roda na minha cabeça. 
É verdade que as razões que justificam algum acontecimento, apenas aparecem algum ou muito tempo depois do efectivo acontecimento. É assim. Só mais tarde é que parece que tudo ganha sentido. 
Quem é que nunca passou por esse tipo situações?
Mas e se não for sempre assim?
E se passarmos por determinado tipo de experiência e não conseguirmos perceber o porquê nem hoje, nem amanhã, nem nunca?
É possível que haja este tipo de acontecimentos “isolados” sem explicação?
Até há bem pouco tempo eu pensava que isso era impossível. Na generalidade da minha vida o que se tem passado é sempre justificado pelas minhas ações, pelas minhas escolhas em certos momentos, pela influência de terceiros, pelas minhas decisões, quanto mais não seja até pelo meu carácter. Um acontecimento tem uma causa (explicação) e tem uma consequência (efeitos a curto ou a longo prazo).
É meio estranho quando apenas conseguimos ver o porquê sem resposta e nem sequer temos perspectiva de no futuro encontrar uma justificação para o sucedido. Poderão pensar que é ousadia minha estar a tentar adivinhar o futuro. Sim, verdade. Estou a antecipar que na vida que ainda tenho pela frente nunca encontrarei justificação para o que me aconteceu. Mas, e se for mesmo assim?
E se realmente nada no meu caminho me vai conseguir explicar porque é que determinado acontecimento se tornou real?
Não fica um vazio? 
É claro que fica um vazio! Para que é que andamos aqui se não atribuímos significado àquilo que nos acontece?
Por outro lado, o meu raciocínio leva-me para outra hipótese. 
Não será normal que este tipo de coisa aconteça também? Não será normal que as coisas se passem sem ser necessário terem uma razão aparente? E, se assim for, o que fazemos? Aceitamos apenas como se isso fosse o curso normal da nossa existência? Será que existir pressupõe que aceitemos este tipo de acontecimento sem pensarmos em mais nada?
Não sei. Talvez isso seja verdade. 
Será, de certo, muito mais libertador. Imaginar que as coisas acontecem só porque sim dá um sentido de… tranquilidade. Sim, aceitar que existem situações que não são para justificar e pelas quais não temos de andar a correr atrás de razões para lhes dar um significado é, em certa medida, libertador. 
Se tivermos essa noção aquando desse mesmo acontecimento, talvez isso nos permita viver esse momento de forma plena, sem surpresas ou amarras. Porque, afinal de contas, aquilo não nos vai trazer quaisquer consequências ou não vai servir para explicar o que quer que seja no futuro. É um acontecimento puro e duro de onde nada mais se tira. É apenas e só um momento.
Agora que termino este texto fico com pena de não me ter apercebido desta hipótese mais cedo. Talvez tivesse tido a coragem de viver algumas coisas e situações de forma plena sem me questionar de o porquê de isto ou aquilo me estar a acontecer. E as oportunidades passam. E não voltam. São momentos isolados que se proporcionam, sabe-se lá porquê!, sem consequências ou justificações. 
Sim. 
São momentos.
São momentos que passam e não se repetem.
Chegar a esta possível conclusão justifica que esses momentos tenham passado por mim sem eu os aproveitar devidamente? Ou seja, tive determinada experiência para que pudesse pensar nela, na sua falta de razão, para perceber tudo isto?
Não sei. Isso só faria sentido caso esses mesmos momentos que perdi, por pensar nas razões de acontecerem, voltassem a ser reais. Aí sim. Eu saberia que os tinha de aproveitar plenamente. O problema é que esses momentos nunca serão iguais aquando aconteceram da primeira vez. Eles não se voltam a repetir.
Se calhar não há mesmo uma justificação para tudo.
0 0
0 %
Contente
0 %
Triste
0 %
Radiante
0 %
Zangado
0 %
Surpreso
Publicação Seguinte

Corrupção e colaboração premiada

Corrupção e colaboração premiada Os meandros dos crimes de corrupção de “colarinho branco” cuja expressão vem do inglês “white-collar” (do romancista Upton Sinclair em 1919) designando funcionários hierarquicamente superiores, vestidos com formalidade (por oposição aos “blue-collar, trabalhadores braçais), que se aproveitam das suas funções e posição de privilégio para cometer […]
%d bloggers like this: