A Jarra Rachada

Helena Durães
Tempo de Leitura6 Minutos, 48 Segundos
Cheguei a sonhar como todos os outros. Sonhar que um dia iria ser livre, que alguém me iria pegar e levar-me daqui para um local belo, airoso e perto de um grande mar azul onde pudesse senti-lo todos os dias.
Eventualmente, os anos foram passando. Consegui ver todos aqueles que à minha volta eram sãos a serem levados, todos eles com feições distintas, alegres, como se soubessem que, finalmente, iriam para um lugar bem melhor e, acima de tudo, não mais estariam sozinhos. Iriam fazer parte de uma nova história.
Fui vendo-os a ir e ficava tão contente. Era assim que tinha de ser, eles tinham nascido para isso. Apesar de desde cedo sonhar como eles, eu sou diferente. A minha luz não é nítida, a minha cor tem falhas e, sobretudo, são muitos os indícios de que estou prestes a rachar. Sou tudo o que as outras jarras não são. Todas elas são belas, altivas, brilham no escuro e estão perfeitas, fortes, sem nada que faça adivinhar que se podem partir.
O meu lugar é nesta estante. Colocaram-me aqui para esconder o defeito do móvel. O fundo está rachado e como as minhas costas são aquelas que também estão mais rachadas, encontraram uma forma de me expor, sem revelar as minhas fraquezas, e assim esconder o defeito na madeira da estante. Tudo bem. Sempre foi assim. Na realidade já me habituei. E daqui sempre posso ver como as outras jarras são levadas, como são as pessoas que por aqui passam, posso sempre estar de frente a ver uma vida que eu sei que nunca vai ser a minha, mas que penso ser belíssima, tal e qual como nos filmes ou nos contos de fadas.
Ainda bem que apenas eu saí toda rachada. As minhas costas estão uma desgraça… Parece que ao mínimo movimento elas se podes despedaçar. Por isso, tento sempre estar quieta no meu canto para que, pelo menos, me mantenha junta e possa estar a ajudar a estante. Quem sabe se um dia não a levam? Pode sempre aparecer alguém que não ligue àquele pequeno defeito. Há momentos em que quero mesmo que isso aconteça. Muito provavelmente, será o meu fim, ou ficarei no chão, esquecida, encostada à parede, à espera de que alguém me dê um pontapé e eu acabe destruída. Mas, na verdade, não me importo. Há muito que sei que não tenho futuro, mas se levassem o móvel era sinal de que ele finalmente ia ter a sua própria história e que bom que seria! Não tenho medo de que me destruam. Na realidade, sempre me senti meio assim, sem grande vontade própria ou oportunidade para viver os meus sonhos. Seria apenas e só o meu fim, um pouco mais cedo do que se pensaria.
Acabou de entrar um homem na sala. Noto como é gracioso o seu andar. Está a conversar com alguém e reparo logo nas suas mãos. Nós jarras temos esse péssimo hábito… Ele tem umas mãos não muito grandes, mas são bonitas. Oiço-o a sorrir e que belo som! Tento ver os seus olhos e, tal como o som do seu riso, são cativantes. Não é muito comum aparecerem por aqui homens que me despertem a atenção desta maneira, por isso sinto-me logo mais alegre. De certo, vai escolher a bonita jarra vermelha que está à janela. Seria perfeita para ele e ela ficaria tão bem!
Inesperadamente, vejo-o a aproximar-se do móvel onde estou. Sinto-me completamente imóvel, sem conseguir descortinar porque raio é que aquele homem está a andar na minha direção. Já bem perto da estante onde estou, ele inclina-se e os seus bonitos olhos castanhos caem sobre mim. Estou sem saber o que sentir, nunca ninguém me tinha olhado desta maneira. Pela primeira vez, não sei o que pensar.
Assusto-me! Aquele bonito homem está a colocar as suas mãos nas minhas pegas. Ai! Deus! Diz-me, por favor, que ele me vai levar aqui. Ai! Será agora? Será agora que toda a minha espera terá uma resposta? Será agora que este bonito homem me vai tirar daqui e levar-me para um novo local?
Assim que as suas mãos cobrem as minhas duas pegas, sinto-me a levitar. Não posso acreditar que ele me escolheu a mim. Bem sei que a minha frente está apresentável, mas… As minhas costas… Ele ainda não viu as minhas costas. Mas há a possibilidade de me querer à mesma, mesmo com as minhas costas rendilhadas, não há? Ele está a ser tão cuidadoso… Nunca pensei que o toque do homem pudesse ser tão cuidadoso e ao mesmo tempo tão seguro. Agora. Agora vai dar certo.
Ele faz um leve gesto e eu sinto que o meu pé está no ar. Já não está na estante… Ai que bom que é poder estar assim, no ar, a ser segurada por alguém. Meu Deus! Como é bom sentir que alguém me está a segurar, nunca poderia imaginar como isto é estonteante e, ao mesmo tempo, harmonioso. Quero estar nas mãos deste homem o máximo de tempo possível!
De repente, sinto uma das minhas asas a dar de si. Não. Não, não, não. Por favor, deixem-me que ele me leve, por favor. Mas, conforme ele me eleva mais um pouco para si, a minha pega direita começa a rachar.
A dor da vergonha toma conta de mim. Não. Isto não pode estar a acontecer. Não.
Vejo como o seu olhar muda. Agora é diferente. Os seus olhos continuam a ser os mais bonitos que já vi, mas agora fitam-me de forma diferente. Ele inclina um pouco a cabeça e eu sei que ele está a ver, pelo menos, parte das minhas costas rendilhadas.
É o fim.
É o fim do meu breve sonho.
Devagar e ao de leve, o bonito homem volta a pousar-me na estante com o cuidado devido para que a pega não se despegue totalmente, retirando as suas mãos de mim. E, neste instante, sinto-me tão vazia, tão triste, tão sozinha.
Vejo como o bonito homem me olha antes de virar costas. Depois, ele vai para outra parte da sala. São os mesmo bonitos olhos, mas agora com um misto de engano e de pena.
A realidade cai sobre mim. É esta a minha vida, agora só tenho de fazer o máximo que conseguir para
que a minha pega não rache completamente e me caia. É que se isso acontecer, vão fazer-me na pega o que já me fizeram nas costas: vão tentar colar as partes. Detesto que me façam isso, nunca fico bem, sempre cheia de marcas, os cacos nunca ficam bem ligados…
Mas, agora, também já não me importa. O vazio e a sensação de regressar à minha solidão pura e intensa é como se me destruíssem. É como se me dessem um pontapé e os meus cacos se espalhassem pelo chão. Porque é que isto tinha de me acontecer? Eu sempre soube que esse era o meu fim: cacos no chão da sala. Para quê este ato cruel de alguém me levantar daqui, para depois, em um minuto voltar a ficar no mesmo sítio?
Só espero que a pega não me caia e não se parta. Se se partir em dois, vai ser ainda mais difícil colarem tudo… Mas, agora, também já não é importante. O que importa se fica mal ou muito mal colado? Nada. Porque eu só tenho de estar aqui, nesta estante, a esconder o defeito na madeira. Para sempre até que já nada me segure e me desfaça nesta prateleira.
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