Enganar o Tempo

Penso se a vida não será obra do acaso. Ou melhor se a felicidade não será obra do acaso ou da sorte. Sim. Talvez seja da sorte. A felicidade é obra da sorte. É preciso alguma sorte para se ser feliz, não é assim?

Como ficam aqueles que não têm sorte?

A vida é um rio com curso certo, com perdas e com ganhos, sempre numa linha reta. Se alguma vez o rio transbordar isso é um acaso. Sem razão aparente e sem qualquer tipo de boa consequência. É apenas um acontecimento esporádico e que nada significa. Depois de transbordar, a vida volta ao seu caminho regular sempre e tristemente monocórdico.

É claro que quando se dá conta desta vida sempre certeira, onde invariavelmente seguimos pelas paragens sempre certas, assoberbados para poder fazer alguma coisa ou ter alguma coisa, é como se nos dessem uma pancada na cabeça, que fica a ressoar e a ressoar. E esperamos que o tempo passe. Que o tempo passe e que nos ajude a amenizar e a aceitar o que é certo.

Mas, a nossa relação com o tempo é sempre turbulenta. Por um lado, o tempo passa depressa quando estamos bem e, por outro, quando se está mal parece que demora tanto… E, normalmente, é quando estamos mal que queremos que esse tempo passe a correr. Para que possamos ficar mais sossegados no nosso canto, a ver e ouvir bonitas histórias que não são nossas, a olhar pelos outros e a lutar todos os dias para não nos deixarmos ir.

Li em qualquer lado que Honoré de Balzac disse que o homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo. Isso é tão certo. O entusiasmo também se perde quando ganhamos consciência do cinzentimo vida de quem não tem sorte. E sim, talvez haja mesmo mortos em vida. Como se pode ter entusiasmo quando se percebe que a vida não é mais do que aquilo que se conhece e do que aquilo que sempre se imaginou de forma tão realista. De facto, há mesmo vidas assim: não há momentos que mudem o curso do rio para um outro caminho qualquer. E, se por algum momento, houver algo que se altere é como um sonho. Um bonito sonho que nos mostra o que podemos ser verdadeiramente com alegria, com força e sem amarras. É um bonito sonho porque em qualquer momento tudo acaba e o rio volta ao seu curso natural. Afinal, os sonhos são sonhos porque mais cedo ou mais tarde acabam com um abrir de olhos.

Quando abrimos os olhos o que podemos fazer é encontrar algo para enganar o tempo e a nós próprios, dizendo que tudo vai correr bem, que as coisas acontecem quando têm de ser, que a mudança está nas nosas mãos, blá, blá, blá. 

Prefiro brincar com o tempo para que este passe melhor. Fazer alguma coisa que goste, ouvir uma boa música, escrever um texto ou ter uma boa conversa. Isso ajuda sempre a que o curso certo da vida vazia da sorte que nos traz a felicidade corra de forma um pouco mais prazeirosa.