Carta ao Final da Noite

De todo o meu coração que gostava de te ver. Acredita que é verdade. Gostava tanto de te ver. Eu poderia ficar escondida, atrás de um cortina qualquer, numa sala qualquer, em qualquer sítio do mundo. E ficar-te-ia a ver, assim, ao de longe, escondida. Como sempre estive: escondida.

Creio que a única vez em que não estive escondida foi quando me viste. Está desacansado, eu agora sei que não me viste por descortinares em mim algo de peculiar, que te despertou a atenção ou atraiu. Eu sei que não, está descansado. Bem sei que me olhaste como se tivesses olhado uma outra mulher qualquer. Eu sei que não tenho nada de único que faça alguém olhar. De qualquer das formas, e mesmo para ti não sendo nada de especial, e mesmo que me tenhas olhado como se estivesses a ver uma outra coisa qualquer útil, de que precisavas naquele momento, ainda assim, quando me viste foi a única vez em que deixei de estar escondida.

E, depois… Tudo o resto. Talvez tenha sido a única vez em que não me escondi. Tudo o que recebi naqueles fugazes momentos foi maior do que aquilo que alguma vez eu conseguirei perceber. E, talvez, seja também por isso que ainda te queira ver. Sei bem que já não te lembras de mim, mas, mesmo assim, gostaria de ter ver, assim escondida e protegida pela minha própria solidão.

Quando desapareceste e eu fiquei aqui com esta dor angustiante nada do que me disseram aconteceu: “é uma aprendizagem”, “de certeza que algo de bom vem aí”, mas a minha favorita é: “tudo o que acontece é por uma razão”. Como se a vida fosse algo em que os pontos estão todos ligados e onde, invariavelmente, temos de passar por um para chegar a outro.

É verdade que já não tenho muito o sentido das coisas. Creio que mo roubaste ou, então, eu não fui capaz de o guardar em mim e deixei-o fugir. Mas, posso-te dizer, com toda a certeza, que já não tenho o sentido das coisas. Foi como se a cola que fazia com que as peças permanecessem juntas tivesse deixado de cumprir a sua função. E, as peças, já tão debilmente coladas, acabaram por colapsar. Não tenho bem o sentido das coisas, não. E… Talvez seja das coisas de que mais saudades tenho.

Sim.

Tenho saudades de ter esse sentido das coisas, de viver sem estar dor. Tenho mesmo saudades. Sei bem o que tenho de fazer e estou a cumpri-lo. É, concerteza, muito diferente de tudo aquilo que me fizeste sentir e talvez seja também por isso que deixei de dar sentido às coisas. Foi como se tivesses sido algo que nunca deveria ter acontecido, foste mesmo um acaso. Não aconteceste por nenhuma razão. A menos que tenhas acontecido para que eu sofra. Mas, isso faz-me acreditar que, dessa forma, estou a sofrer por uma crueldade emanada de um divino sem nunca ter feito nada para o merecer e, por outro lado, sem aprender nada daí ou daí ter vindo algo de bom. Nada. Zero. Não consigo dar sentido ao que me aconteceu. Sim, também é isso: não nos consigo dar sentido. 

Mas, depois, também me lembro de que as pessoas que sofrem, muitas da vezes, é também por um acaso. As coisas más acontecem a toda a gente e sem razão aparente. Sempre ouvi dizer que existiam pessoas que passaram a vida inteira a sofrer, com infâncias duras, adolescências traumáticas, e adultezes absurdas. Existe. O sofrimento puro e duro, sem que se tenha feito nada para o merecer e sem que isso tenha qualquer justificação aparente, antes ou depois de acontecer, é uma realidade. Creio que nunca pensei que eu seria uma dessas pessoas. Bem, na realidade, nunca alguém pensa isso. E, por um lado, ainda bem que não. Seria tudo ainda pior: crescer com a certeza do sofrimento. 

A carta vai longa.

Além de tudo, deste-me tanta coisa que eu não consigo esquecer… Sim, não consigo. Também me disseram isso, sabes? “Com o tempo esqueces. Com o tempo deixas de sentir tudo isso!”. Conto-te um segredo: passou todo este tempo e eu continuo a sentir o mesmo fascínio por ti, sabes? E não me esqueci de nada. É certo que existem alguns pormenores que estão agora um pouco ténues, mas lembro-me de tudo e… como já te tinha dito, apesar de sentir que estás bem, às vezes pergunto como é que estarás. Como é que têm sido os teus dias… Se sorris e se demonstras o teu amor livremente, como te pedi da última vez que te falei. Sinto que sim. Sei bem que não o fazes porque to disse. Fazes porque sabes que é assim que és feliz.

Tenho-me sentido muito cansada e, por vezes, espero que os dias passem a correr. Admito, mas é só a ti que o admito, quando penso em ti e imagino como se tudo tivesse sido normal entre nós, que o tempo passa muito melhor. É como se entrasse numa realidade alternativa, em que imagino que nos encontraríamos, dir-me-ias que nunca me esqueceste e perderíamo-nos num longo beijo. Descanso muito melhor ao imaginar mentiras, é verdade. Mas, no meio da minha dor, a minha mentira é a única coisa que me consola… Nem que seja por breves instantes. Até dizer, novamente, a mim mesma, que o que acabei de imaginar é mentira.

Às vezes, também tenho medo de me perder na minha imaginação e de voltar a saber o que é isso de ter esperança. Mas, está descansado, por agora sei bem que ainda consigo evitar isso. Afinal, a minha esperança levaste-a tu, sem saberes, no teu abraço.

Carta ao Final do Dia

Pintura de Júlio Pomar