Uma Luz que se Apagou

(Marta entra em palco. Olha em frente, para a cama, com as mãos entrelaçadas, atenta a tudo o que vê. Depois, olha para o seu lado direito, onde está uma estante. Caminha até ela e passa os seus dedos, levemente, pelas prateleiras, verificando se tudo está no mesmo lugar. Rodopia e caminha até à mesinha de cabeceira. Coloca a mão no candeeiro, ajeitando-o. Vira para a frente uma moldura sem fotografia e acena. Marta continua a andar até ao toucador, do lado oposto à estante. Marta pára em frente ao espelho e inclina-se. Fixa os olhos no seu reflexo. Ela pega na sua trança comprida e admira-a, por um breve momento).

Marta: Está, exactamente, como antes. Exactamente, com o mesmo comprimento. (Marta passa as mãos pela sua trança). Exactamente, igual aquando da… (ela cala-se e pega na ponta da trança) Aquando da sua chegada. (Marta olha para a plateia). Como tenho saudades… Como ainda sonho… Ainda sonho que o vou encontrar. Eu sonho que o vou voltar a ver e ele estará igual. Exactamente igual ao que estava na última vez que o vi. Como se ele tivesse ficado parado no tempo. Da mesma forma que a minha trança está naquele exacto comprimento de antes… Ele poderá estar exactamente igual, não é certo? (Marta solta um riso nostálgico) Depois de todos estes anos eu ainda tenho essa ilusão. A ilusão de que o vou voltar a ver a entrar por aquela porta (Marta aponta para o sítio de onde entrou). Ainda consigo distinguir todos os traços do seu rosto, como se o desenho do tempo não tivesse passado por si (ela inclina a cabeça), como se aquele momento em que o vi aqui estivesse cristalizado, transformado em objeto. Num objeto que não se modifica, que não se parte nem é corroído pela idade. Num objecto em que toquei. Em que toquei, agarrei e do qual me tornei sua proprietária! (fecha os olhos) Num tempo só meu (coloca a mão no seu peito), único. Um tempo único onde te tive. Onde te tenho.

(Marta abre olhos)

M: Que tonta que sou, não é? (endireita-se e devagar vai até à cama). Eu sei que sou tonta. (encolhe os ombros e senta-se) Racionalmente, sei que não é por manter tudo, exactamente no mesmo lugar, que ele vai voltar. Mas… Mas o meu coração, todo o meu corpo, à excepção da minha cabeça, sente que ele vai regressar. (Marta pega novamente na sua trança) Quando o meu cabelo chega a este comprimento, não o consigo cortar. Lembro-me sempre de como o meu cabelo estava bonito naquela altura em que ele aqui estava. O meu cabelo comprido, forte, rebelde. Sempre gostei do meu cabelo, pensando que ele era uma das coisas mais bonitas que tinha, afinal sempre tive tão poucas! Então, pensava que ele também gostaria desta minha coisa bonita… (deixa cair uma lágrima, mas logo de seguida seca-a) É claro que ele nunca gostou. Mas, mesmo assim, cada vez que vejo o meu cabelo assim comprido, como hoje, lembro-me sempre dele e, depois, venho para o quarto para me certificar de que tudo está igual à última vez em que ele aqui esteve. Como se estivesse sempre tudo preparado para o receber, quando um dia ele quisesse regressar. (passeia a mão pela colcha da cama) Como se este próprio espaço estivesse à sua espera. Sempre à sua espera. (volta a passar a mão pela trança) Tal como o meu cabelo, que está sempre à espera dos seus dedos. (volta a olhar para a plateia) Ele cumpre um ciclo. (silêncio) Sim. Ele cumpre um ciclo contínuo, vicioso. Cumpre sempre o mesmo compasso: corta, cresce, cresce, até aqui chegar. Depois, quando me volto a lembrar do que se passou, volto ao início. Corta, cresce, cresce… É uma melodia monótona, eu sei. Mas não será a espera também ela monótona? É monótono estar parado no tempo. Eu estou parada no tempo desde que ele se foi embora. Estou parada no tempo, sempre a viver os mesmos ciclos. Por isso, é que parece que estou sempre a viver aquele momento. Aquele momento em que o tive. O momento está imortalizado, vive sempre. Vive sempre em mim.

(Ouve-se três leves pancadas e surgem na porta Lúcia e Tiago. Marta enxuga as lágrimas.)

Tiago: Afinal, o que vieste aqui fazer? (Tiago entra com Lúcia) Estamos lá fora à tua espera há algum tempo…

M: (passa a mão pela colcha) Vim ver se estava tudo em ordem… Tinha-me esquecido de umas coisas para levar.

L: (Lúcia senta-se na cama) Como sempre este quarto está igual… Já era tempo de mudares, não?

(Marta olha para Lúcia, seriamente)

M: Porque tenho de mudar? Só porque está assim, na mesma, há demasiado tempo? 

L: (maneia a cabeça) Calma, não é para fazeres nenhum drama, nem para começar com filosofias baratas.

M: (Marta fixa o seu olhar em Lúcia) Quanto é demasiado tempo?

(Tiago, senta-se na cadeira do toucador e cruza os braços)

T: Marta, Marta… Porque começas sempre com estas perguntas da treta?

(Marta não tira os olhos de Lúcia, como se nem tivesse ouvido o comentário de Tiago)

L: Marta, há quanto tempo que nem sequer mudas uma cadeira de sítio? Nunca vi nada assim… Não te fartas de ver tudo sempre no mesmo lugar?

(Marta aperta os lábios)

(Tiago ri-se, com descontração)

T: Não lhe ligues, Marta. Sabes como é a Lúcia.. Só te está a provocar.

M: O quarto é meu. Faço o que quiser com ele.

L: Aqui é mais: não faço nada com ele.

(Lúcia olha para Tiago e os dois maneiam a cabeça)

M: Porque raio temos de mudar as coisas de sítio?

L: (encolhe os ombros) Sei lá! Porque é giro, é diferente, sempre olhamos para as coisas noutra disposição. Não te cansas de ver tudo sempre igual? Os livros sempre na mesma ordem, a cama sempre no mesmo sítio, o espelho sempre ali (Lúcia aponta para o espelho) E isto… (Lúcia levanta-se, vai até à mesinha de cabeceira e pega na moldura vazia) E esta moldura? Esta moldura sempre sem fotografia, igual ao dia em que a compraste! Isto até parece doentio! 

(Marta levanta-se de rompante e aproxima-se de Lúcia. Arranca-lhe a moldura das mãos.)

M: Doente és tu! (acelera a locução) Sempre a mudar, sempre a mudar, fugaz. Como se nada te bastasse e estivesses sempre em busca de mais e mais. Mais emoção, mais coisas, mais adrenalina. Queres sempre mais, mais, mais! Porque raio eu tenho de me cansar de ter tudo sempre no mesmo lugar?

(silêncio. Volta a colocar a moldura na mesinha de cabeceira, no mesmo sítio onde estava anteriormente.)

M: Também tu estás sempre no mesmo ponto, sempre em busca de algo que nunca encontras!

(Lúcia olha para Marta e nada diz.)

(Tiago levanta-se da cadeira e chega perto de Marta. Ele tenta colocar a sua mão no seu braço, mas ela sacode-o.)

T: Marta, não é razão para tudo isto. A Lúcia simplesmente fez uma questão…

(Marta desvia-se e anda até ao espelho do toucador.)

M: (num tom irónico, Marta imita Tiago) A Lúcia simplesmente fez uma questão. (pausa. Regressa ao seu tom normal) Lá porque ela fez uma simples questão tenho de aceitar… Acho uma piada às pessoas. Lá porque é só uma pergunta, está tudo bem. É só uma perguntinha de merda. Então e se forem duas, já me dão autorização para me irritar? Ou só o posso fazer à terceira?!

(Lúcia suspira. Tiago coloca as mãos na cintura, incrédulo com a resposta de Marta)

T: Nós somos amigos há demasiado tempo para estares com esses pretextos para… para te comportares desta forma… Sei lá, para explodires! O que se está a passar contigo, Marta?

(Marta olha para o espelho e nada diz. Senta-se na cadeira do toucador)

L: (virada para Tiago, diz entre dentes) Eu não te disse que ela estava impossível? Há alturas em que ela fica sempre assim!

(Tiago olha para Lúcia, como se aquela frase lhe despertasse algum sentido. Depois vira-se para Marta.) 

T: Há alguma coisa que nos queiras dizer?

M: Não. Nada. (vira-se para Tiago e Lúcia) Porque tem de existir alguma coisa para eu contar?

(Tiago dá alguns passos em direção a Marta.)

T: Pára de ser irritante. Sabes como detesto que me respondas com perguntas!

M: Agora estou a irritar-te? Bem… Afinal não sou só eu que tenho problemas.

(Tiago inclina-se sobre Marta e coloca cada uma das suas mãos nos braços da cadeira.)

T: O que tens? O que é tudo isto? A Lúcia tem razão… Ela tem razão quando diz que não estás bem. Tu não eras assim.

(Marta não tira os olhos de Tiago.)

M: Não sei do que falas. Eu sempre fui assim.

(Lúcia anda pelo quarto, prestando atenção aos objetos.)

T: Não. Tu não foste sempre assim. Não foi assim que te conheci. Não te conheci com essa tristeza que trazes contigo. Essa tristeza que te ensombra os olhos…

M: (voz forte) Não tenho nada.

T: Essa tristeza que consigo sentir só de estar perto de ti.

(Marta nada diz.)

T: (suplica) Eu só te quero ajudar.

L: Deixa-a. Não vês que ela está assim desde que soube do defunto?

(Tiago não se mexe e apenas olha para Marta. Marta mexe-se na cadeira, como se quisesse sair de onde está.)

L: Vês? Foi apenas preciso falar em defunto para que o corpo dela ganhasse vida. (Lúcia pára de andar e fica perto deles) Que frase estranha, não? Um defunto dar vida…

M: Deixa-te de coisas e deixa-me sair daqui, Tiago!

T: A Lúcia tem razão, Marta?

(Marta apenas consegue olhar para Tiago e continua a mexer-se, querendo libertar-se, em silêncio.)

T: Ele morreu há mais de cinco anos. Como continuas a pensar naquele badameco?

(Marta pára de espernear e apenas olha para Tiago. Ele pega-lhe nos braços e aproxima-se da sua face) Ele morreu, Marta. Ele morreu e ele não mais voltará, por muito que mantenhas as coisas no mesmo sítio!

(Marta fecha os olhos e suspira. Tiago larga os braços de Marta e endireita-se.)

T: Ele morreu, Marta. Não esperes, porque ele não vai voltar a entrar por aquela porta.

(Marta afunda-se na cadeira. Lúcia coloca uma das suas mãos no braço do Tiago. A dor está estampada na cara de Marta.)

L: (leva a mão aos lábios) Não devia ter dito o que disse.

(Marta para a plateia)

M: Ele não voltará não é certo? Não voltará a dizer que quer estar aqui, comigo, nesta cama onde nos conhecemos, não é? Não vou voltar a sentir o seu cheiro, o seu toque na minha pele, ter o seu sabor nos meus lábios. Ele não vai voltar a mostrar-me aquele seu sorriso.. O mesmo sorriso que me deu, quando viu que a moldura que estava na minha mesinha de cabeceira ainda estava sem nenhuma fotografia.

(Marta levanta-se e chora.)

Ele não vai voltar a passar os dedos pelos meus livros. 

(Marta vira-se para o espelho.)

Ele não vai voltar a olhar-se a este espelho.

(Marta pega na tesoura no toucador. Ela vira-se para trás, a olhar para Tiago e Lúcia.)

Ele já não vem, pois não?

(Tiago e lúcia olham um para o outro e depois para Marta.)

(Marta vira-se e inclina-se em frente ao espelho. Abre a tesoura. Fala de forma calma.)

M: Não há uma hipótese remota de me terem escondido a sua existência ou de que ele tenha fugido de mim para sempre e afinal a sua morte não é verdade, pois não? Como se me quisessem esconder o facto de ele ter fugido e então tivessem inventado esta morte. Isso aconteceu? Ou não?

T: Marta… Marta, ouve-te, por favor.

L: (preocupada) Marta, deixa a tesoura.

(Marta coloca a tesoura a meio da sua trança.)

M: Esqueçam, não precisam de dizer nada… Sabem uma coisa? Eu adorava quando ele passava os dedos pelo meu cabelo comprido… Assim, comprido como está agora. Eu gostava tanto de quando ele mo fazia… Sentia-me sempre uma princesa, (Marta vai fechando a tesoura, cortando o cabelo, devagar. Lúcia abraça Tiago, que chora.) Como se o seu toque me desse uma luz que eu nunca tive. (o cabelo cai no chão) Uma luz que não voltarei a ter. (Marta coloca a tesoura no toucador) Uma luz que se apagou. (apagam-se as luzes do palco.)