Jornalismo, Dar ou não Espaço ao Errado? Eis a questão.

Dizem que o jornalismo é liberdade. Dizem que o jornalismo, o bom, é um dos garantes da democracia. Dizem que o jornalismo tem de ser independente para informar o cidadão. O jornalismo deve informar. O certo e o errado.

Ultimamente, tenho tido muita vontade de não dar voz àquilo que considero errado. Errado para o mundo, para o país, para a cidade. Errado para qualquer sociedade. Não lhes quero dar palco. É verdade, admito, há muito que quero restringir o espaço a quem defende as restrições da liberdade. 

Eu posso querer fazê-lo, mas, ontem, fui obrigada a fazer o que é suposto, ditado pelas regras. E foram apenas alguns parágrafos, nada de muito extenso. Porém, sei que vai chegar o tempo em que terei de dar mais do que alguns parágrafos a esses, que para mim são um erro das sociedades modernas, e eu tenho de engolir esse sapo.

Já engoli muitos ao longo de dez anos, este será apenas mais um. Porém, confesso, a perspectiva de ter de engolir este, que para mim é um “sapão”, aflige-me. Aflige-me e faz-me questionar ainda mais o que raio ando aqui a fazer.

Na sua génese, o jornalismo deve informar o que é certo e o que é errado desde que sejam factos. Acreditanto, espero eu!, que está a dar a liberdade ao cidadão de decidir o que quer que seja com base em todos os factos confirmados que tem à sua disposição. O jornalismo é quase como Pilatos: “dei as informações, dei o que precisam de saber para decidir em consciência, a partir daí lavo as minhas mãos”. Confesso que estou a lidar mal com isso… Talvez, porque ao longo de dez anos tenho visto como a sociedade parece ter mudado. A crença de que as pessoas são solidárias está a desvanecer-se. É claro que nem toda a gente é igual! O que seria do mundo se assim fosse? Provavelmente, a espécie humana já teria acabado por se dizimar a ela própria. Tenho visto tantas opiniões e ações que são contra àquilo que é a essência do ser humano, a solidariedade e a empatia para viver em sociedade, que isso me faz temer que sejam essas pessoas a decidir pela maioria, não tomando decisões conscientes.

Estúpidos existem em qualquer lado, é verdade. A questão aqui é perceber se esses estúpidos vão decidir pela maioria. Se o fizerem farão uma estupidez, concerteza, não sabem fazer mais nada, e, depois, não haverá espaço para pormos as mãos na cabeça, nem gritarmos por socorro. Eles terão ganho. A estupidez terá ganho.

Por isso, não sei se isto de o jornalismo informar o certo e o errado seja sinal de que as pessoas vão decidir o melhor para o colectivo. Seja sinal de que as pessoas vão escolher em consciência. Talvez, seja esse meu medo o motor para que eu queira recusar exercer a minha profissão segundo os seus princípios basilares.

Porém, é também verdade que não nos podemos julgar deuses, no sentido em que possamos ter esse poder de dar às pessoas aquilo que queremos, por considerar que estamos a proteger o colectivo daquilo que é errado. Isso é, também, demasiado perigoso.

Acredito e sei, acima de tudo, que cada vez mais me assola este cansaço de ter todas estas questõs na minha cabeça: se aquilo que faço vale de alguma coisa, se contribuo para que as pessoas possam abrir os seus horizontes ou, pelo contrário, se abro espaço para que abutres apareçam e com a sua mensagem cheguem àqueles que estão mais isolados sobre si mesmos e, assim, ganhar apoiantes.

E, depois, temos as redes sociais. As redes sociais têm coisas positivas, claro que sim, ainda mais evidenciadas pela pandemia. No entanto, trazem também este lado terrível de impunidade no que toca a dizer-se o que se quer e da maneira que se quer. Já li tantas coisas más, terríveis e absolutamente estúpidas, fazendo-me questionar se é possível um ser pensante ter aquele tipo de opinião. E, é verdade. É mesmo possível. Às vezes gostava de responder. Porém, depois páro. Ignorar é mesmo o melhor remédio. Quem escreve estupidez está à espera de que alguém lhes dê espaço para continuarem a cuspir estupidezes, por isso é melhor parar logo ao início.

Agora que escrevo isto, apercebo-me que talvez seja essa minha ação de ignorar insultos e estupidez nas redes sociais que me faça querer fazer o mesmo no jornalismo. Mas, o jornalismo não pode e nem deve ser encarado como as redes sociais, senão aí é o descalabro total.

Oxalá daqui a uns anos arrume as botas e vá contar outras histórias.