Transcendente – Acordei-te V

– Porque é que me estás a olhar assim?

Pergunta-me ele com o seu melhor ar de desajeitado. Meio ruborizado e com aquele sorriso nervoso que ele tenta sempre disfarçar.

Meu Deus. Eu amo-o. Eu amo este homem de uma forma inigualável, única e distinta. É um sentimento maior do que eu e, talvez seja por isso, que não consigo dizer-lho.

Dizer-lhe…

Ainda não consigo dizer-lhe que o amo. Não sei se algum dia vou ser capaz… Com o medo de que assim que essas palavras, Eu amo-te, saiam da minha boca também este sentimento se desvaneça e tudo acabe.

– Ei… O que foi?

Agora ele está a rir-se, sentido-se já pouco confortável por eu não lhe responder e apenas o admirar. Sim. Como eu gosto de admirá-lo. Admirar todas as pequenas marcas que tem no pescoço, o pequeno sinal atrás da orelha, as leves rugas que se formam perto dos seus olhos, ou a sua barba indisciplinada. Penso que… Não, tenho a certeza! Tenho a certeza de que foi numa dessas vezes em que o admirei que percebi como o amava.

– Nada – digo, no meio de um sorriso.

– Nada? – Ele acena e, finalmente, deixa de lado aquela sua expressão de quem não gosta de estar exposto – Está bem.

Ele encolhe os ombros e eu inclino a cabeça para o meu lado esquerdo.

– Falta-te o brinco.

De repente, ele vai até à sua orelha em busca da pequena argola que sempre usa. A sua expressão de surpresa mostra-me que ele nem se tinha apercebido que estava sem o seu pequeno adorno.

– Será que o perdi?

Mudou de expressão. Agora, ele é um homem com uma missão: encontrar a sua pequena argola. Aí começa ele, a vasculhar nos lençois amarrotados, sacode as almofadas, salta para o chão e põe-se de rabo no ar, a tentar ver o que quer que seja debaixo da cama.

Maneio a cabeça. A pequena argola reluz na escura mesinha de cabeceira. 

– Eu sei que não gostas de me ver com a argola, mas… mas sabes como ela é especial para mim…

– Se fosse um bicho, comia-te.

Ele olha para mim. E, naquele momento, eu consigo decifrar no seu olhar tudo aquilo que eu queria encontrar. No entanto, eu sei que ele apenas se apercebe de que já não precisa de procurar mais.

E ele sorri-me. Deus, como eu gosto de o ouvir sorrir.

Calmamente, ele volta a sentar-se à minha frente. Espanta-me como ele nunca tem frio, mesmo quando não tem uma peça de roupa vestida. Ele puxa o seu cabelo para trás, sem tirar os olhos de mim.

– Então? Não me vais perguntar onde está a argola?

– Não – ele diz, simplesmente, e coloca as suas mãos em cada uma das minhas pernas. Endireito as minhas costas e coloca as minhas mãos à roda do seu pescoço – Se tu sabes onde ela está, tudo bem.

O sorriso que lhe mostrava desaparece. Não porque eu não esteja contente, não tem que ver com isso!, muito pelo contrário. A confiança que ele me demonstra com estas simples palavras apenas me fazem ter mais a certeza de que aquilo que nos une é algo que nos transcende.

Suspiro. 

Agora, é ele que não tira os olhos de mim.

– Já pensaste… Já pensaste que… Se não nos conhecêssemos, mesmo assim, estaríamos ligados? 

Ele não muda a sua expressão.

– Como… Como um algo qualquer transcendente, divinal ou etéreo?

– Como se… Como se estivéssemos ligados por… pelos livros que lemos, pela música que ouvimos, pelas… pelas nossas vivências… Como se soubessemos da existência um do outro, mas sem nos conhecermos?

Ele apenas me sorri e logo de seguida penso que o que pergunto não tem qualquer sentido.

– Desculpa. Estou a dizer disparates.

Ele leva a sua mão à minha orelha e maneia a cabeça.

– Não… Não são disparates. É uma boa pergunta. Creio até que estava um pouco de ti na minha vida antes de nos conhecermos…

– Na poesia do Pessoa… – completo, lembrando-me da alegria que foi perceber que a poesia do Pessoa esteve sempre presente desde que nos conhecemos.

– Ou na tua maneira descomprometida quando me ouviste dizer que o amor só acontece a um por cento da população.

Sorrio. Se ele soubesse que eu já pertenço a essa percentagem… Oxalá, pertençamos os dois.

Encosto a minha testa à sua e, depois, deixo um beijo leve na sua face.

– Estamos a sonhar…

Ele beija-me os lábios. Uma leve carícia que aí, sim, me transporta para um lugar etéreo.

– E não é bom?

Pergunta-me ele, junto aos meus lábios.

Apenas aceno e beijo-o de forma doce, como ele sempre me diz que eu faço.

– A argola está em cima da mesinha de cabeceira – digo, entre os pequenos beijos que deixo nos seus lábios.

Ele ri-se e eu páro, apenas para o poder admirar. Outra vez, eu sei.

– Tinhas razão. Se fosse um bicho, comia-me.

Ele volta a encostar a sua testa à minha e eu levo as minhas mãos a viajar pelo seu cabelo, sentido os seus fios por entre os meus dedos.

– Isto é muito melhor do que qualquer ligação transcendente.

Desvio um pouco a minha cara para que possa encontrar os seus olhos onde, agora, vejo muito mais do que compromisso ou verdade. Vejo uma profunda intensidade que me faz acreditar que o transcendente é aqui e agora.

Acordei-te IV