Estou à Espera

Estamos sempre à espera.

Estamos sempre à espera que algo de diferente aconteça nesta merda em que vivemos.

Eu, pelo menos, espero isso.

Não. Eu não espero isso. Eu anseio por isso. É muito diferente.

Ou não será?

Quer dizer o mesmo, mas o peso é diferente.

Por isso, não tem o mesmo significado. Ou melhor, tem. Mas tem um outro sentido.

Sim, tem um outro sentido.

Assim é que é.

Estou sempre à espera.

Estou sempre à espera de que algo de bom aconteça.

Já não quero nada de estonteante.

Já só quero alguma coisa boa.

Alguma coisa que me engane e me iluda para que possa continuar a viver.

Para que possa continuar a viver esta vida mísera,

Sem qualquer significado… Nem sentido.

Como se vive uma vida sem significiado e sem sentido?

Não sei.

Mas, estou à espera.

Ai, como eu estou à espera de deixar de sentir, de deixar de querer, de deixar de pensar.

Como anseio por esse antídoto que me vai fazer deixar de te sentir.

Para que eu possa, finalmente, descansar.

Imaginam sequer a falta que me faz descansar?

Conseguem sequer supor isso?

A falta que sinto de me entregar ao sono completo,

Sem perturbações, nem o constante acordar…

O constante acordar desta que não sinto como a minha vida.

Sim, estou sempre à espera.

Estou sempre à espera de que me possa sentir dona de mim.

Dona da minha vida. Agarrá-la e arrepiar caminho,

Sabendo que estou onde me sinto bem,

Sabendo que estou a fazer o que é suposto,

Sabendo que estou a fazer o que era suposto desde início,

Sabendo isso porque sou feliz.

Estou eternamente à espera de que seja feliz.

Aqui, sentada nesta velha cadeira,

Postrada.

A chorar em silêncio.

A imaginar-te do meu lado,

Que voltarás

Que eu sou suficientemente boa para que tu voltes,

Para que tu voltes e me voltes a pegar no rosto

Ai saberia que eu sou suficiente

E esta tristeza desapareceria

E eu seria eu.

Eu voltaria a ser eu,

Voltaria a sentir como sentia

A sorrir como sorria

A caminhar como caminhava.

Estou à tua espera.

Sem fazer o mínimo ruído.

Quieta,

Presa,

Desesperançada,

Agoniada,

Destruída,

Aniquilada.

Porém, mesmo assim, estou à espera.

Espero porque o meu coração teima em bater.

Sou como uma galinha j+a morta mas que corre sem pescoço.

Uma e outra vez,

Uma e outra vez,

Mas, não sucumbo.

Vai-se lá saber porque merda é, mas não sucumbo.

Ando às voltas,

Às voltas,

À espera…

À espera de deixar de lado a dor,

De deixar de pensar,

De deixar de sentir,

E adormecer… Num sono profundo e…

Estou à espera de não mais acordar.

Pintura: “Waiting” de Federico Zandomeneghi