Alguma vez me Quiseste Mal?

 – Alguma vez me quiseste mal?

Mantenho os olhos fechados. Percebo bem o que ele me pergunta, com a sua cabeça encostada ao meu peito. Sinto que o acolho sem peso nem medida e a sua proximidade faz-me acreditar que nada não passou do que há muito era suposto ter acontecido.

Sinto a sua cabeça que se move, a barba que me roça na pele e maneio a cabeça.

– Não. Como é que poderia querer-te mal? Muito pelo contrário.

Atrevo-me a levar a minha mão ao seu cabelo e por aí passeio os meus dedos na certeza de que ele está ali comigo. É uma realidade, não está na minha imaginação. Somos parte um do outro, sem saber o que quer isso dizer. Mas, sim. Sinto-o como parte minha, sempre o senti, como poderia alguma vez querer-lhe mal?

– Nunca te pude querer mal. Apesar de tudo, nunca me poderei esquecer que me desta esta sensação do que é viver. Nunca te poderia querer mal.

– Assim foi mais difícil.

A sua frase sai como uma verdade absoluta. Sinto a apertar-me ainda mais contra si. Não lhe posso mentir. Fi-lo uma vez e isso custou-me praticamente tudo.

– Sim… Por um lado, foi pior. Se te odiasse era tudo mais simples. Há aí um motivo lógico para nunca mais te querer ver. E isso ajuda. Mas eu nunca te poderia odiar.

– És demasiado complacente comigo.

Ele deixa o meu peito e senta-se direito na cama. Não poder abracá-lo é como regressar àquele momento em que o vi partir de uma vez para nunca mais voltar. É certo que aqui estamos, mas sempre pensei que tudo tinha sido definitivo.

– Sabes bem que não sou esse homem que tu pensas.

Suspiro.

– Eu sei. E depois?

O seu olhar traz apenas questionamento. Ele é tão límpido e tão transparente. Pelo menos quero acreditar que, aqui, neste momento, ele está a ser transparente comigo. Finalmente, depois de todo este tempo. Eu tenho de acreditar que ele está a ser transparente. Se assim não for, de que valeria ele ter-me procurado?

– Eu sei que não és o que eu idealizei ao início. Eu senti-o na pele. Mas, não é por isso que eu nunca te esqueci. Nunca te esqueci porque fazê-lo era esquecer uma parte de mim. Que mais te posso dizer? És uma parte de mim, não te posso esquecer nem querer-te mal. Com todos os teus defeitos-

– Com todos os meus defeitos – Ele diz em modo de desasbafo e levanta-se. Ele anda até à janela e eu decido cobrir-me.

– Estes meus defeitos destroem tudo aquilo que eu tento construir. E tu sabes que eu também te vou destruir.

Suspiro, novamente. Não sei como o posso fazer ver que ele tem de dar uma oportunidade a si próprio. Ele tem e deve dar uma oportunidade a si próprio de ser melhor. Porém, mesmo se não der, eu sei que vou amá-lo da mesma forma.

Encho-me de coragem:

– Então, destrói-me.

Silêncio.

Vejo a sua respiração a acelerar e a forma como fixa o seu olhar lá fora. Ver aquele homem nú naquele quarto, como se fosse uma escultura do renascimento, dá-me força para continuar.

– Destrói-me. Destrói-me com tudo isso que aí tens dentro. Com essa tua amargura, com esse vazio que nunca preencheste, com o teu egoísmo, com esse teu medo de te entregares.

– Eu não posso fazer isso.

– Porquê? Porque não o podes fazer? O que te impede? Diz-me, por favor, o que te impede e eu compreenderei. Eu compreendo tudo aquilo que me possas dizer, mas eu preciso que fales comigo. Não percebes isso? Eu só quero que fales comigo.

– Tu… – ele abana a cabeça e, finalmente, olha para mim – não consegues ver que és tu que me impedes?

– De que forma? – Não deixo o seu olhar. Se ele ainda me culpa pela tragédia do nosso passado, então ele tem que me o dizer.

Devagar, ele dá o primeiro passo na minha direção. Não o deixo de olhar enquanto ele dá o segundo. Rapidamente, ele dá os poucos passos que faltam e está de novo ao meu lado na cama, a segurar-me o rosto com as suas duas mãos, como só ele sabe fazer.

– Pela primeira vez, estou a pensar nos sentimentos de alguém acima dos meus. Sabes o que é isso? Eu não sou complacente como tu. Culpei-te pelo enorme erro de estarmos juntos no passado e isso fez-me esquecer-te – sinto as lágrimas que chegam aos meus olhos – Não pensei mais em ti. Eu sabia que essa era a razão perfeita para que me pudesse afastar e até desprezar-te porque… Porque tudo isto é diferente. Desde o início que eu sei que é diferente!

As minhas lágrimas soltam-se e adornam as suas mãos.

– Alguma vez me quiseste mal? – Não sei como consegui falar. A minha voz embargada não esconde a tristeza que esta sua confissão me trouxe.

E, assim, de rompante, como tem sido tudo com ele, ele beija-me. Ele beija-me de forma segura.

– Não – ele diz junto dos meus lábios – Não, nunca te poderia querer mal. É por isso que isto é diferente.

Ele seca as minhas lágrimas com os seus dedos.

– Não vês? Não vês que é por isso, por isso de nunca te querer mal que eu sabia que o que sinto é diferente? Depois tudo isso se transformou em querer proteger-te de tudo, ir-me embora e nunca mais te procurar.

Sinto um alívio inexplicável. Ele está a ser transparente. Tudo aquilo que senti não foi mentira. Deus! Aquilo que vivi não foi uma mentira e foi partilhada.

– Se te destruir, não vou conseguir viver com essa culpa – ele encosta a sua testa à minha.

Beijo-lhe as mãos e coloco as minhas sobre as suas.

– Destruamo-nos.

– Transformemo-nos em terra.

– Para voltarmos a ser gente.